Primeira geração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Primeira geração

a terra nova – a Terra da Promissão
eldorado que aos poucos foram-se acostumando
a ver e a compreender como um filme de faroeste
o novo oeste brasileiro se integrando
na civilização do planalto marcada por seus pés
de aço e micaxisto
 
Iam crescendo numa ordem rígida
buscando a forma ideal da cidade
(forma/modelo/estilo)
a ordem dos edifícios nas linhas puras
(eixo central da cidade)
a Praça dos Três Poderes
o Palácio da Alvorada
a Catedral
o seriado das superquadras
a paisagem de vidro sob as transparentes persianas
 
Eis Brasília – cidade nascida do cerrado
dos lençóis dágua represados
da destruição do agreste
(ossos crânios culhões divididos)
tudo à terra misturados – à doce terra-mãe
violentada por uma legião de homens-bárbaros
homens-feras de armas nuas nas mãos
mãos mais fortes que seus instrumentos de trabalho
acostumadas a rasgar o útero das rochas com as unhas
a sufocar entre os dentes as explosões das granadas
 
A cidade nascia da determinação de homens rebeldes
esticada em suas ligas de aço e cobre
(…)
 
Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
madeira ferro aço acrílico e vidro
nasceu Brasília mineral e semáfora
como uma mundana portadora de grande beleza
(objeto de assédio de homens poderosos)
rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
 
Arrancada do agreste – não obstante – soberana
ave migratória – ave alva (branca) erva
(com gestos de heroína e mártir):
nasceu feminina em suas curvas e meneios
de flor se abrindo à luz do sol
– trevo de quatro folhas quatro estrelas –
vitórias-régias em doces giros navegando
sob o remo dos ventos
Assim nasceu Brasília
a cidade-candango
de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
em creches escolas parques de diversões
e era delas agora a cidade mais que de seus pais
que a fizeram explodir de suas mãos
com seus facões mais afiados que o vento
machados serras de dentes perfurantes
máquinas pesadas a remover entulhos:
o fogo a destruição total
até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
se entregasse como uma puta à violência dos homens
 
O corpo informe da mata jazia triturado
sob relinchos de cavalos encantados
assovios gritos uivos
a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
restou o que não restou como se jamais fora
os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
No aboio e no assovio do candango
mais do que nunca vivo e diligente
agora mais consciente de sua missão
o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
ia-se transformando em paredes de alvenaria
(em aldeias cidades-satélites)
sua comunidade crescendo diversificada e anômola
 
Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de pala botina de cano longo
lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira
 
As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
 
As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareciam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
 
A cidade não era de quem a inventara,
                            [mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
 
A cidade nasceu do espaço de um centímetro
de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
      ensaiado no altiplano
para o céu – um céu limitado à estatura do homem
ao seu movimento cotidiano
à distensão de seus músculos
à sua imperiosa angústia existencial
 
A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
a cidade de vidro e alumínio erguida
dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
do norte e do sul do leste e do oeste
homens (antes de tudo) sertanejos
(antes de tudo) fortes – homens
na expressão mais exata da palavra
 
Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
a mais típica de todas as cidades
a mais socialmente política
a mais original das urbes brasileiras
que nome outro te dariam se não – Brasília?
 
Nasceu do papel vegetal
da imaginação de dois homens
da determinação de um terceiro
(a quem cabia dar as ordens)
para que a cidade fosse construída acaba habitada
um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo
 
A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
(convergência e conjuntura do planalto)
cerrado-agreste – território sem divisão
(inteiriço no mapa)
como um oco um grande oco no estômago da terra
nesse território agora delimitado medido em
      toda sua extensão
aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
mistura de muitas raças
unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
uma inseminação artificial.
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.



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