Primeira geração

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Primeira geração
 
(continuação)
 
Não havia mais homens de matolão às costas
panela fervendo ao ar livre
homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
chapéu de palha de carnaúba à cabeça
mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
boné de pala botina de cano longo
lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
vestidos de terno de linho branco e casimira
 
As trempes cederam lugar ao fogão de gás
as redes de tucum aos colchões de mola
tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
mas cuecas de náilon e poliéster
óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
 
As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
chinelos de rosto por sapatos de salto alto
anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
integradas na sociedade compareceriam às
reuniões na casa dos políticos
damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
 
A cidade não era de quem a inventara,
                           [mas de quem a fizera crescer
como uma dor no osso uma febre no crânio
um buraco na alma
a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
lenta ao pôr-do-sol como uma oração
na noite que de repente chegava
com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
– manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
 
(continua amanhã)
 
José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 


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