Primeira fala de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Primeira fala de Brasília

Se indagarem, me permito
a todos pedir lhes digam
que é longe, que nos cerrados
a noite cresce e magoa.
Mas que sem temor prossigam,
que a calma dos descampados
afaga, por mais que doa.
 
Digam
que aqui fui plantada um dia
em pleno ermo e ganhei
o sumo da terra, a chama
que pacifica, que a luta
do homem, brava, alivia.
 
Nem se aflijam com as imensas
distâncias: aqui fiquei,
ficarei, a transmitir
um pouco da sertaneja
paz, da grave e funda
paz rural. Que ninguém tenha
senão plácida tristeza
a que doce é resistir.
 
Álacre eu canto
nas alvoradas mais puras,
nas frescas brisas levado.
Nem há tristeza: há somente
a força do agreste, o sopro
das asas e dos insetos,
silêncio de antes do mundo,
silêncio de antes da vida,
o sono dos vegetais.
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, nasceu em Mariana.
Extraído da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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