Prece natalícia de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts 2 Comentários

Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço.
Caminho que vem do Passado e vai ao futuro;
caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste:
caminho de ao longo dos séculos,
caminho de ao longo do mundo:
– agora e aqui todos se cruzam
pelo sinal da Santa Cruz.
Ave, Cruz! Tanta cruz pelos caminhos,
através de tanto tempo e tanto espaço!
Deus de braços abertos para os homens,
do broquel dos Cruzados estampou-se,
potentéia, de goles e vazada,
no velame das naus da Descoberta.
Do Restelo veio ela ao Mar Ignoto
e, seguindo “por este mar de longo”,
na passagem de linha, à noite, quando
mergulhou no horizonte a Tramontana,
o céu de lua-nova persignou-se
no Cruzeiro do Sul de Mestre João,
Vera Cruz, Santa Cruz – chamou-se a terra
achada, e “em tal maneira graciosa”
que deu árvore sua à cruz chantada
para a missa, e que foi padrão de posse,
armoriada de quinas e castelos.
Crucifixo foi a arma que, nas selvas,
contra as flechas ervadas empunharam
Ad majorem Dei gloriam as missões.
Signo heroico daqueles que partiam
do cruzeiro dos adros aos sertões,
foi o gesto, na gesta das Bandeiras,
do que elevou a mão para benzer-se
e levou-a depois à cruz da espada.
Presidiu o amoroso cruzamento
dos três sangues que as redes e as esteiras
conheceram nas ocas e senzalas.
Subiu a um cadafalso de ignomínia
para o beijo final de um sonhador.
Sobre a esfera-armilar de uma coroa
e no centro estelar de uma bandeira
foi o fulcro supremo do poder.
E da intersecção de auroras e poentes
– setas em cruz sobre os arcos retesos –
partiram os dias, partiram as noites,
cruzaram os ares, cruzaram as terras,
por séculos e anos e luas e…
…E, um dia inaugural,
num alvo papel pregado à prancheta
a cruz sempiterna pousou sua sombra
e – um traço, outro traço –
“do gesto primário de quem assinala um lugar”:
dois riscos cortando-se em ângulo reto, e, pois, de uma cruz
nasceste, Brasília!
E, sublimação do “gesto primário”,
ponto de encontro das fundas raízes do Tempo e do Espaço,
emerges da terra em forma de cruz.
E, porque és Cruz, és Fé; e, porque és Fé, Brasília,
sozinha no plaino serás a intangível, a ilesa:
na sombra, a teus pés, não se há de tramar
o torvo conluio dos quatro elementos,
nem contra os teus muros as fúrias adversas prevalecerão.
Chuva que te inunde,
vento que te açoite,
sol que te incendeie,
bruma que te ofusque,
astro que te agoure,
raio que te toque:
– tu secarás a chuva,
abaterás o vento,
apagarás o sol,
dissiparás a bruma,
conjurarás o astro,
embotarás o raio!
Ai estás, Brasília! E como está vivendo
belamente este instante que é, de todos
os teus instantes, o eternizador!
Ai estás, Brasília! E, como estás, pareces
ave de asas abertas sobre a terra:
voo pousado para alçar-se, altivo!
Aí estás, Brasília do olhar de menina! Menina-dos-olhos
olhando sem mágoa o Passado e sem medo o Futuro,
sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam
ao impacto impetuoso das tuas pupilas;
com teu meridiano que foi Tordesilhas:
corda torcida que os teus ancestrais distenderam
para que aos quatro ventos soltasses agora o teu gesto de setas
– és tu, juvenília, “non urbs sed civitas”,
o centro da Cruz, Tempo-Espaço,
plantada no teu Quadrilátero,
com suas quatro hastes que são quatro séculos,
e são quatro pontos cardeais,
e são quatros ciclos de ação:
o da Descoberta, o do Bandeirismo,
o da Independência e o da Integração.
Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,
centrípeta para tornar-se centrífuga,
Brasília, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama
do Milagre Novíssimo que és tu;
a que dirá “Presente”, impávida, ao chamado
do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero
das vias todas, da mais ínvia à mais viável;
o imã para a limalha de aço do Trabalho;
a ponta do compasso autor da Equidistância;
Brasília, a tua Cruz que é Presépio também
e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:
– Barca de esperança,
Carta de marear,
Rosa-dos-ventos,
Vela de conquista,
Figura de proa,
Bandeira de popa,
Torre de comando,
Estrela de mareante,
Porto de destino,
Âncora de firmeza,
Portal do sertão,
Corda de arco,
Farpa de flecha,
Doutrina na taba,
Foice de desbravamento,
Clareira na selva,
Clarinada no ermo,
Bateia no garimpo,
Diadema de esmeraldas,
Crisol de raças,
Ara de liberdade,
Trono de império,
Barrete frígio,
Toque de alvorada,
Meta das metas:
                                      – Vive por nós!
 
Guilherme de Almeida, poeta natural de Campinas (SP).
Poema transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira  

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Comentários (2)

  • José Carneiro

    |

    Um mar de poesias para Brasília

    Responder

  • Francy Sousa

    |

    LINDO….LINDOOOOO….

    Responder

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