Por amor

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Por amor
 
Depois que brigamos,
apanhou o travesseiro e foi para o quarto.
Solitário no sofá, ouvia seu soluço sufocado,
mas, não queria ceder.
Em forma de cuia,
aparei a água da torneira na mão,
lavei o rosto.
Tive medo que voltasse… não voltou.
Quando o soluço cessou, quis vê-la,
mas, meu orgulho impediu;
sugeriu que ficasse…
Fiquei.
Dedilhei meus dedos sobre minha cabeça,
me fiz cafuné.
Implorava ao sono que viesse…
Não veio.
Tangi meu orgulho, fui vê-la.
Mal coberta e esparramada sobre a cama…
a cobri com carinho;
os caminhos das lágrimas sobre seu rosto
eram visíveis.
Assentei-me à beira da cama, quis beijá-la,
não tive coragem.
A luz que vinha pela janela refletia
na base que cobria suas unhas. Seu braço caído
à borda da cama, esquecido…
em sonhos distantes, me faziam ciúmes.
Com saudade recuei, de costas.
Solitário no sofá, deixei que
minhas lágrimas corressem livres pelo rosto,
embebendo o travesseiro.
Ah, o amor!
O amor passivo e sereno,
também me fez adormecer, e chorou,
quando viu dois corações
cheios de orgulho, calaram-se.
 
André Gomes de Moraes Neto, poeta brasiliense.
Transcrito do livro “Por Amor”

 


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