POEMA (S) PARA BRASÍLIA

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

As conchas dos olhos
recolhem a cidade recém-vinda
das réguas, das pranchetas.
Em cantos translúcidos,
o sangue inaugural de suas ruas.
 
O olhar se inebria no mistério
que encanta luas
habitadas  por feras e Anhangüeras,
abrindo-se em vôos
aos astros mais remotos e esquecidos.
 
O útero azul desta comuna
concebida em cios seculares
armados por duendes.
O útero azul desta comuna
que num átimo se forma
das carnes das auroras.
(Ah, urbe alada, há bem pouco
matéria de miragens
geradas entre insânias e insônias.)
 
As mãos dos pioneiros desabrocham
esplanadas e verdes
por entre calos duros e selvagens.
Despojadas de plumas,
as palmas – espetadas por bichos e pequis -,
a trotar sobre praça imaginária.
Nos cumes de pirâmides de vento.
Nos eixos com seus trevos
a girar no invisível.
 
As mãos indóceis estrangulam noites,
a acender miríades de sóis
pelos andaimes,
triunfantes sobre o escuro.
 
As mãos, armadas
da aspereza dos cactos e dos mares,
rasgam sangram os nervos do cerrado,
esmagam os troncos retorcidos,
que choram o diluído predomínio,
o augusto império
sobre a nação do Oeste.
 
Plantas de ferro (indômitos calcâneos)
dos pés adventícios
marcham nas madrugadas planaltinas.
As marchas, que promanam
dos quadrantes das praias,
das garras litorâneas,
das engrenagens das ruas e dos óxidos,
desaguam um ritmo de guerra
contra o sono do Oeste.
 
Candangos pés, em binário compasso,
nos campos do silencio
desvirginam veredas
a enfatizar sua cor – candente e rubra.
Tecem pautas de luz
hasteadas nos píncaros do tempo
e em estuários de contos e de lendas.
 
Cidade submersa na memória,
nos sonhos, mas concreta
no útero de luz que a acaricia.
Eu canto as suas linhas irmanadas
em arcanos de pedra,
de ouro e prata
(mares de sol, lunares oceanos),
onde efusões do ser colho e equilibro.
 
Navegam no ar as mãos pesadas e ósseas
a florir superquadras
e o perfeito embalar de seus meandros.
(Estas mãos de cartola
informes, tecidas pelos ventos,
haurindo de metáforas
palácios e luas e esplanadas.)
 
Canto os trevos. E neles canto o verde
dos burocratas exatos,
deferidos,
cronômetros nos punhos e nas frontes,
essas férreas formigas quotidianas.
 
As águas, as águas dos milênios,
no lago de finos tributários,
de peixes, de magias,
de rios natais sorvidos (sequestrados)
para as doces vertigens
do altiplano.
 
Sim, claros domicílios
do silêncio – esta urbe, esta ave –
onde alforriados de mares e fuligens,
de salsugens e becos,
em voejos difusos, coloridos,
desintegram raízes de veneno.
 
Amoldado à aridez da atmosfera,
eu canto esta comuna
em seu milagre, em seu murmúrios.
Por mais que a concha azul e luminosa
me complete em loucuras.
Por mais que a secura da aragem
em suas cordas me sangre.
Por mais que as vibrações
indecifráveis do azul
dardejem-me a garganta.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Casulos do Silêncio”, 1988.

 


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