Plano piloto

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Plano piloto

Sim, Brasília.
admirei o tempo
que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
                           Paulo Leminski

 
No principio, era apenas
a intocada solidão
do Planalto Central.
Com o decreto de mudança da capital,
chegaram os homens
em fluxo errante dos brasis
apartados.
 
E do mandamento dos projetos
esticados  sobre as mesas,
olhos e dedos pressurosos
indicavam uma direção
sobre a planura sem fim:
 
surgia a homilia da esperança
tutelando o tempo e
a geografia,
ferida aberta no cerrado
                       imensidão depravada
                       pelo arsenal de tapumes.
 
Diferente dos diademas
que conformam o céu
sobre as Montanhas de Minas,
altar em que se debruçam os olhares da História,
o desconforto agreste
da poeira dos primeiros tempos
pairou sobre corpos suados
e máquinas infatigáveis
no altiplano violado
pelo concreto.
 
A retidão do horizonte
quebra o rigor da densa couraça
da flora retorcida
transforma cada alvorada
num feixe de brasas
prenhe de amanhãs.
 
Essa fosforescência
insiste em se proclamar
indiferente às mazelas e fetiches
da urbe administrativa
instaura a eterna marcha para o Oeste
 
Já não és, Brasília,
esse tempo de esquadrias
ou outro tempo de esquadrões,
nem a solitária hora de habitar uma maquete
nem a gente desconfiada num lugar inacabado
nem a incomunicável aridez de suas vias
nem o cansaço dos acampamentos
 
livre dos coturnos
que a batizaram ainda na antemanhã
a cidade sem esquinas
não se esquiva
nem se fatiga
              dos traços do arquiteto
 
seus botecos suas noites
sua música seus automóveis
seus escândalos suas feridas
seu festim de esgotos no Paranoá
 
tudo é vida tudo é morte
nesse canteiro de repartições
nesse plantio de autarquias
nessa febre de ângulos retos
 
Capital que se espreguiça
e viaja no Grande Circular
para chegar cedo à Esplanada
e azeitar
as engrenagens do poder.
 
Museu do futuro
seus blocos como legos
sobrevivem como casulos
onde habitam políticos sem rosto e sem memória
 
Mas a fuselagem supersônica pilotada por homens
verdadeiros
desconhece os riscos da prancheta
e dá vida ao que era sonho
conduzindo almas além das superquadras,
eixos e “tesourinhas”
decola sobre a geométrica metrópole
                      abre suas asas de Norte a Sul
no rumo de embrionária utopia.
 
A cidade (im)plantada
               – cicatriz no mapa do Brasil.
 
Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, natural de Cataguases.
Poema transcrito do livro “O Sol nas feridas”, Dobra Literatura

 


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