Paulo Porto

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Paulo Porto, como informa sob o título de “O sonho de D. Bosco (I)”, inspira-se em “uma mensagem de Pessoa”. Trata-se evidentemente de “Ulisses”, que assim se inicia: “O mito é o nada que é tudo”. Daí sua conclusão, segundo a qual “O mito é a palavra dada/que se fez mundo”. “O corpo morto de Deus” (4º verso da mesma estrofe 1ª), do lusitano, recria-o Paulo Porto e temos, então: “O horto mudo de Deus”. “Sem existir nos bastou/Por não ter vindo/E nos criou.” (4º e 5º versos da estrofe 2ª) transmuda-se e torna-se “Este mito que aqui germinou (…)//Por não ter vivido/Foi ouvido e nos ergueu”. Com habilidade, o jovem poeta, o único autenticamente brasiliense desta coletânea, apossa-se da voz de Fernando Pessoa, e a funde à expressão profética ou lendária (“Ele é lenda que se fez palavra” – 3º verso do 3º quarteto) do sacerdote salesiano. Na exegese que faz de “O sonho de D. Bosco (II)”, diz Paulo Porto que “o poema aborda, de maneira ficcional, o que teria sido a visão do Novo Milênio. Minha narrativa acrescenta à tal visão outras, como o envilecimento do sonho de JK pelos militares, durante os anos da ditadura”. O ‘rio humano’ do poema seriam os pioneiros que foram sinalizados (no sentido camoniano”: ‘as armas e os barões assinalados) pelo sonho de uma cidade até então mítica, profética; porém não vieram para a construção. Deste rio humano escolhido mas que não vingou, vieram afluentes, outras pessoas (estes, sim, pioneiros) que acreditaram no sonho de JK. Estes ‘toscos eleitos’ (pois eram rudes em sua maioria) se tornaram os ‘construtores do amanhã’, os candangos”. O poeta faz analogia entre a civilização egípcia e a nossa, daí a referência ao Templo e ao edifício do Congresso Nacional.
Texto transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

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