Pau-de-Arara

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Pau-de-Arara 
Por Clemente Luz

Uma das histórias de Sayão, que mais diz de sua personalidade vigorosa e estranha, é esta, que me foi contada há anos e que agora me vem à memória, de repente.
Deixando a selva, onde rasgava a Brasília-Belém, Sayão sobrevoou o imenso mar verde do arvoredo. Lá pelas tantas, seu piloto, que residia em Goiânia, pediu-lhe licença para visitar a família. A licença foi mais do que concedida. Sayão mandou que o avião descesse em certo ponto, entre Goiânia e Anápolis, e ali ficou à espera de uma carona terrestre para Brasília.
Depois de algumas horas de espera, passou um  "pau-de-arara" lotado. Tomou-o, como qualquer nordestino, sem declinar o nome ou a qualidade de diretor da Novacap.
Naquele tempo, quando a chegada dos nordestinos constituia  sério problema, pois não havia demanda suficiente de mão-de-obra, a Polícia vigiava as entradas da cidade em construção. Havia dificuldades no abastecimento e número reduzido de alojamentos. As levas de imigrantes só eram permitidas, dentro das fronteiras de Brasília, mediante documentos do INIC ou da Novacap.
Ao aproximar-se o caminhão da entrada da cidade, os cansados viajantes começaram a inquietar-se. Será que poderiam entrar e descansar, depois da penosa viagem? A expectativa era enorme e dolorosa. Os homens, curtidos pelo tempo e pelos sofrimentos, entreolhavam-se, temerosos. O silêncio foi descendo, pesado e triste, ao interior do caminhão.
Bernardo Sayão, tranqüilo e gigante, assistia às cenas, sem nada dizer.
À entrada da cidade, lá estava a Polícia, toda-poderosa, erguendo intransponível barreira para as duas dezenas de seres humanos desesperados.
– Aqui só entra quem tiver cartão do INIC ou cartão de emprego da Novacap. Ordem é ordem!
O guarda, todo-poderoso, deixou cair, como sentença fria, as palavras de condenação. Houve apelos, oferecimentos de "propina", lágrimas e gritos de raiva, aos pés do guarda impassível…
Foi quando Bernardo Sayão, que nada dissera até então, destacou-se do grupo, trazendo o paletó amassado sob o braço.
Disse ao guarda:
– Seu guarda, este povo viajou não sei quantos dias, para vir construir Brasília. Será que não pode entrar?
– Não – foi a resposta seca do guarda.
Sayão tentou mais uma vez, sem nada conseguir.
Por fim, meteu a mão no bolso da camisa e tirou o seu cartão de identidade. Apresentou-o ao guarda, dizendo:
– Pode deixar esta gente passar. Todo mundo está empregado por mim, para trabalhar na Novacap e na rodovia.
O guarda arregalou os olhos, pediu milhões de desculpas e, por fim, sem outra saída, disse:
– Mas, doutor Sayão! O senhor tem cada uma!… Pra que fazer todo esse mistério! Podia ter falado logo…
Sayão bateu-lhe levemente no ombro, subiu ao caminhão e rumou para Brasília, com a nova turma de candangos.

Extraído do livro "Invenção da cidade", de Clemente Luz.

 


Trackback do seu site.

Tags:

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …