PARALELO 15: HOMEM DIANTE DO MAR

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Do alto do edifício de forma cilíndrica que desponta imponente do Setor de Autarquias Sul, um homem contempla a cidade. A capital do país construída no cerrado ainda desperta sua admiração, depois de cinco décadas – apesar do esbulho de seus políticos detratores, da mutilação dos administradores inescrupulosos e o adultério do projeto original, escultores criminosos das rugas urbanas, das estrias sociais, das celulites imorais, que o povo em si, guardião de sua alma, sabe exorcizar ou vencer.

Vejo-o, entre absorto e macambúzio, com os olhos fixos num ponto. O que veem seus olhos tão pressurosos quanto enigmáticos? Talvez, admire que às margens da usina de esgotos da Asa Sul, apesar do mau cheiro e do circunlóquio de urubus, ainda vicejam plantas ribeirinhas e as garças fazem pouso e se alimentam de detritos.

Ou será que o absolutismo de seu silêncio e a paralisia dos olhos vêm da sinuosidade de seus pensamentos quando contempla a Esplanada dos Ministérios? Aquela enorme via, corredor de invisíveis mistérios, onde papéis e decisões tomam rumos muitas vezes inesperados.

De onde estou, numa mesa (melhor dizendo, estação de trabalho, para não perder o bonde da história e estar em sintonia com a noção terminológica dos novos tempos e a semântica do mundo globalizado e competitivo), sim, nesse lugar em que me encontro compulsoriamente, como numa relação bovina com a realidade funcional, com computador, telefone e outros implementos, vejo-o, entre silêncios e fugas interiores, observando a marcha da vida e do tempo. Onde estarão seus olhos, seus pensamentos, sua vida, sua esperança – nesse espaço quase sem movimento que ele abriu no galope das horas?

Que cidade aquele homem vê? A cidade oficial, da mordomia e das aparências, burocrática, marmórea e sem alma – de políticos behavioristas, justiça enclausurada e sentimentos esquivos? Ou aquela em que as cigarras de agosto e os ipês em flor, conspurcando com suas belezas a palidez decretada pela estação seca, fazem um concerto simbiótico, plástico e melódico, anunciando a primavera? Ou a dos homens e mulheres que circulam pela W-3 Sul, entre passos apressados e o fluxo vertiginoso de animais metálicos, como na solene marcha das formigas em sua meticulosa faina?

Um homem qualquer? Não, um homem que vê e se vê diante da urbe que existe além do círculo do poder. Mas noto em sua quase intangibilidade, em seu estado de pessoalíssima solidão, a pressa em descobrir para que lado vão as coisas na polis enclausurada, para onde seu coração caminha, e por onde voam seus pensamentos (quais falenas em jardins suspensos).

Um ser que, sem sair do lugar, nada de braçadas no horizonte onde desponta um sol incendiário para fazer a mais luminosa das manhãs do mundo na metrópole balzaquiana. Diante da imensidão do altiplano tenta entender o deserto psicológico das vidas que passam, entrar no seu ritmo, carregar-se na sua energia, numa espécie de solidariedade anônima mas consciente.

O céu é azul e enorme. Maior é o seu comedimento diante da grande arquitetura que o rodeia.  E seus olhos passeiam, porque parece que ele compreende bem dentro de si o que Niemeyer um dia reconheceu: “Passear em Brasília é como passear num jardim. O céu é o mar de Brasília”.

Por isso eu vejo aquele homem como qualquer homem diante do mar. Deslumbramento e reverência ante a natureza indissolúvel, com seu poder de afeto e sedução.

Sim, ele vê um mar. Mas nesse trânsito onírico, ele não divisa navios ancorados nem cais ou despedidas, pois essa é a “única cidade onde não haverá saudade”, como disse um poeta. Mas vê os palácios da Praça dos Três Poderes que parece flutuar na planura sem fim do Planalto Central, território de babilônicos contrastes. E esse encantamento nasce da descoberta que se faz a cada dia, novos ângulos de visão que fluem dos ângulos retos da cidade que é arte em permanente estado de construção e beatificação.

Não, esse homem não quer ir embora pra Pasárgada, ele quer ficar em Brasília, a Capital da Esperança batizada por André Malraux. Eu não perguntei, mas sei que ele quer ficar aqui. É o que traduz seu jeito de observar o Plano Piloto que se abre em asas, de norte a sul, nos 180 graus em que se lança a vislumbrá-lo. É o que dizem os olhos desse homem (Severino? Antônio? Tomé? Nonato? José Raimundo? ou simplesmente João?)? Ele parado no décimo quinto andar do prédio público, de onde descortina tudo com discreta serenidade, sem perceber que o estamos vendo, admirando seus olhos que jamais se fatigam de deambular pelos espaços federais, ora compungido como a arquitetura da Catedral moderna, ora contornando as “tesourinhas” que bifurcam o Eixo Rodoviário e vão levá-lo às superquadras, com seus blocos sobre pilotis e seu comércio localizado, em que a vida também pulsa, apesar da falta de esquinas.

A cidade para ele é um mistério? Onde estão as pessoas, Brasília? Estão nas escolas, e daqui a pouco sairão como os pássaros, em revoada. Estão nos gabinetes, ó homem em transe. Estão por aí, nas Satélites, nas autarquias, na feira do Guará, no Parque da Cidade, no Conjunto Nacional. Por aí, ó homem, onde a vida se desvia em mil trajetos arteriais e pulsa e as pessoas vão de um lado ao outro, pelo grande Circular ou de Metrô, num permanente movimento  em que não há lugar para a melancolia ou o retrocesso.

Taciturno, o homem sobre o qual nada sei, vai se fazendo perguntas entre uma e outra baforada de fumaça de um cigarro que custa a desaparecer entre seus dedos. Assim como quero entendê-lo, ele quer compreender o jeito próprio dos candangos, essa gente vinda de todos os lados, atraída pelo eldorado juscelinista, confiantes que um valor novo se alevantava na doida marcha para despertar o gigante: a esperança.  Aquela mesma que Cassiano Ricardo cantou num madrigal “Vou-me embora pra Brasília, /Sol nascido em chão agreste. /Como quem vai para uma ilha. /A esperança mora a oeste.”  E que Drummond anteviu como alternativa ao marasmo e descontentamento do ser com velhos e vãos territórios: “Vou no rumo de Brasília,/não é aqui o meu lugar.”

Não, não é o Lago Paranoá que o faz navegar. É o céu de Brasília: mar absoluto. Esse céu-mar, essa cidade que nos espanta, porque uma das características essenciais de uma obra de arte é sua capacidade de provocar surpresa e espanto, como reconhece Baudelaire. Por isso, deter-me naquele homem ensimesmado, diante do desafio de entender a obsessiva saga de fazer surgir do nada, do agreste e da poeira uma cidade de corpo e alma, completa minha sensação sobre viver num lugar que representa a unidade na diversidade, o encontro de todos os brasis, a heterogeneidade consolidando o humanismo a que almejaram os idealizadores e os que amalgamaram cada tijolo na busca da concretude e do sonho.

A mesma e profunda lição de se perder nos sete mares que os antigos galeões provocavam nos desbravadores, é semelhante ao ensinamento de que, para viver em Brasília, que se abre todos os dias como uma alvorada, não é preciso ter somente cabeça, tronco e rodas. É preciso, antes de tudo, uma eternidade permanente no olhar.

Muito mais que isso, a humanidade e qualidade de vida de que tanto se ressentem os habitantes de outras metrópoles, é vivida e sentida aqui, cidade antevista no sonho de Dom Bosco, para quem, entre os paralelos 15 e 20 surgiria uma nova civilização, onde verteria leite e mel.  Mas sobre ela não preciso que me falem pitonisas ou adivinhos, pois fico com  a singela e poética constatação do saudoso escritor Esmerino Magalhães Júnior: “uma cidade é uma porção de coisas de onde emana o humano, e não os monumentos apenas”.

Por isso, aquele homem está ali, diante do mar, diante de nós, arquipélago invisível de ternuras e segredos, e  como uma câmara sem pressa registrando o mundo sob este céu: imensidão oceânica que tanto nos devora quanto nos alimenta. E isso me diz tudo. E é o que não nos faz sentir (n)uma ilha.

Por Ronaldo Cagiano

 


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