PALAVRAS À CIDADE LIVRE (Hoje Núcleo Bandeirante)

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas, Converse com os Poetas Sem Comentários

Há trinta anos,
quando aqui cheguei,
no Planalto Central,
em Brasília,
ainda te encontrei
intacta,
na tua verdade pioneira,
na tua realidade rude, mas fecunda:
áspera imagem
do “far-west” brasileiro,
ó Cidade Livre!
Livre! Haverá adjetivo
com mais oxigênio e gloria?
Tuas ruas comprimidas
de rústicos chalés,
barracos-bares,
lojas atulhadas de mercadorias, bugigangas,
em improvisadas armações,
o lôbrego, úmido mercado,
contudo,
tão cheio de produtos da terra
e sombrio pitoresco,
o restaurante original
com culinária selvagem,
que ostentava
todas as carnes de caça do Brasil:
até carne de jacaré ou de cobra…
Hoje estás mudada:
despiste o traje
semibárbaro,
e te mostras garrida e urbana
– mais que urbana, moderna –
com a toalete higiênica e pálida
da Civilização!
Estás destinada ao Progresso:
a sorte que não pára.
Que traz todos os presentes
e também o seu oposto,
porque a Lei da Vida
é sempre esta:
falhar, enfrentar dificuldades,
antes de se criar o Bem…
Chamaste hoje Núcleo Bandeirante.
Uns quiseram te conservar
em redoma de museu,
outros simplesmente te destruir
(haverá algo mais fácil – e terrível –
que a destruição?).
Bandeirante é vocábulo
que se ajusta bem a ti,
à tua origem,
a teu destino de constante mutação,
de mudança para o engradecimento…
Ah! o velho Brasil tradicional,
de imensas propriedades e da escravidão,
que se consolidou à custa do heroísmo
e da ambição
(mas também da violência,
da opressão e de nefandos crimes)
será assimilado
pelo Brasil Novo
da Democracia,
do Povo Vencedor,
do Novo Patriotismo,
que é fraternidade viva, carnal,
e não há símbolos abstratos
e palavras grandiloquentes,
sem sangue, sem dor, sem amor,
e tu, Cidade Livre ou Núcleo Bandeirante,
és uma célula viva, resplandecente,
do Brasil Novo,
que explode em Mato Grosso, Goiás e Pará,
Rondônia ou Roraima,
que se levanta e assimila
velhos Brasis,
cristalizados, superados ou carcomidos,
pois o Progresso é a Lei da História!

Cassiano Nunes, poeta paulista, natural de Santos
Poema transcrito da antologia “Brasília: Vida em Poesia”, de Ronaldo Alves Mourinho

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