Oscar Niemeyer e Fidel Castro em Brasília

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JK e Fidel Castro
Fidel Castro em Brasília – Foto: Arquivo Público do DF


A obra de Oscar Niemeyer possui uma grandiosidade milenar. Quem percorre atento o Eixo Monumental, ainda mais à noite, iluminado, tem noção da plenitude e da dimensão de sua realização como artista. Sua obra, de uma profunda pureza estética, inspirada na natureza, nas curvas barrocas de nossa lembrança colonial e na sensualidade das formas femininas e levada ao mais extremo despojamento, é de arrebatar. Ela não se resume, porém, à genialidade de um homem sensível; é, também, a representação do sonho de um povo em se tornar mais moderno, mais expressivo, mais criativo e realizador.
O refinamento de Oscar Niemeyer, assim como o de sua obra, faz lembrar a simplicidade, a modéstia. Mas não há simplicidade ou modéstia nem na obra nem na pessoa. A modéstia que pensamos ter Oscar Niemeyer nada mais é do que a sua imensa gentileza para com a humanidade, que vem naturalmente de seu espírito público e de sua sensibilidade social; e seus desenhos de arquitetura resultam dos mais complexos mecanismos de compreensão espacial, estrutural, histórico e poética.
Assim costumam ser muitas das grandes obras de arte; quando um obra de arte chega a transcender o próprio processo de criação, torna-se dotada de uma imagem de espontaneidade. A perfeição da obra surge a partir do momento em que todos os seus elementos se harmonizam e não se percebe mais nenhum traço do modus operandi, ela é naturalmente aquilo que vemos, ou lemos, ou escutamos. E surge quando a obra expressa a alma, o estilo do seu autor de forma inconfundível; ela não poderia ser de outra maneira. Assim são os edifícios, as esculturas, as praças, os palácios projetados por Oscar Niemeyer. Parecem o seu rosto, a sua voz, o seu sonho. Estão na paisagem como aves pousadas, como pedras polidas pelos séculos, estão ali como rios, ilhas ou montanhas. Passam a fazer parte da paisagem como elementos naturais. Às vezes, parecem nuvens, olhos, conchas, ocas indígenas; às vezes, um disco voador, ou um gesto de revolta.
Contemplar um museu ou uma universidade desenhada por Oscar Niemeyer é o mesmo que ler sua filosofia a respeito da vida e da arte. Assim como nos sentimos espiritualizados ao entrar em suas igrejas, assim como nos sentimos enobrecidos em sua companhia, tamanha a sua deferência, especialmente para com os mais humildes. Ele é capaz de gestos altruístas, gestos de apoio, generosidade, desprendimento. Em uma festa repleta de presidentes e empresários, ele procura um lugar discreto onde se acomodar, perto dos amigos. Agora, Oscar Niemeyer nos dá mais uma lição de vida, ao completar 100 anos de idade. Apaixonado, criativo, coerente, crítico, atento, sonhador…
Há alguns anos, estive em Havana, convidada pela Casa de las Américas, e numa recepção em palácio, apresentada a Fidel Castro, ele me pediu que falasse sobre Brasília, a cidade onde eu acabara de dizer que me criara. Falei sobre o pôr-do-sol mais bonito do mundo, sobre o planalto, a terra vermelha, o sentimento de espaço, a vegetação inusitada, os prédios que apareciam da noite para o dia, a beleza e a ousadia da arquitetura. E Fidel Castro declarou sua admiração por Oscar Niemeyer, disse que, talvez, nosso arquiteto seja o único brasileiro deste século que daqui a 3 mil anos será lembrado. Lembrei-me da história das belas ruínas.

Ana Miranda
Correio Braziliense, 23 de dezembro de 2007

 

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