Os quatro aniversários

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

OS QUATRO
ANIVERSÁRIOS

A primeira vez que Heitor viu Brasília foi numa aterrissagem. A cidade tinha sido inaugurada havia pouco, mas ainda era uma assombrosa clareira de concreto bruto e terra vermelha. Mas ele viu outra coisa: um colar de pérolas. Até hoje, quase 50 anos depois, não sabe de onde veio a miragem. Teriam sido os ministérios alinhados que lhe deram essa impressão? Ou o Palácio da Alvorada em sua brancura de jóia de cimento?
Ou as casas geminadas, pequenas e brancas, da W3 Sul? Pouco importa, na verdade. O colar de pérolas o fez decidir que viria para Brasília, de onde nunca mais saiu nem sairá.

A primeira vez que Hamilton viu Brasília também foi numa aterrissagem. Estava na cabine do comandante à espera de que, finalmente, a cidade aparecesse no horizonte. Mas o cerrado parecia não ter fim. Monotonamente infindável. Até que o passageiro do avião foi tomado por uma imagem, como quando uma cena inesperada aparece na tela do cinema. Do oceano de vegetação rala brotaram duas torres gêmeas, paralelas uma à outra. Era o Congresso Nacional em construção, o 28 já quase pronto. Hamilton não gosta de contar o que aconteceu depois, mas conto eu: ele chorou, debulhou-se de um modo inapropriado para um engenheiro em franca ascensão profissional.

Da primeira vez que Haroldo viu Brasília, viu um vulcão vermelho. Ele vinha de longa e dificultosa viagem de jipe, de Goiânia a Brasília. Dez horas sacolejando na estrada e xingando a mãe de todos os patrões do planeta. Ele fora designado para conhecer a Cidade Livre, ainda nascente, e descobrir se lá já havia alguma loja de ferragens. O patrão pensava em montar uma filial, mas queria antes saber o que se esperava. Mandou Haroldo, o balconista agitado. – Foi de propósito, pensou.
Quando se aproximou de Brasília, Haroldo já não pensava mais em nada. Talvez por isso tenha sido inteiramente tomado pela cena: três ou quatro paus-de-arara, ele não se lembra quantos, haviam estacionado em frente a um galpão de madeira muito grande. E deles pulavam dezenas de homens, com seus chapéus, malas e sacos de estopa. O santo simultâneo levantava a poeira e os homens eram inteiramente envolvidos pela tempestade de terra vermelha. Haroldo sentiu que alguma coisa muito diferente estava acontecendo ali, e ali ele iria ficar. Nunca mais voltou.

A primeira vez que Honório viu Brasília ela nem existia. Era apenas um terreno em forma de anfiteatro, desenhado a dedo para servir de chão para uma cidade. Fosse qual fosse a cidade que viria, nada nem coisa nenhuma roubaria do céu a imponência de senhor absoluto do lugar. Caixeiro-viajante do interior de Minas e Goiás, Honório pensou na prisão insuportável que era a sua vida, no vaivém que sempre o levava de volta ao ponto de partida e decidiu que a partir de então iria viver sob aquele céu. Fosse qual fosse a cidade.
Todo 21 de abril, Heitor, Hamilton, Haroldo e Honório festejam em silêncio o aniversário da nova vida.
 
Conceição Freitas, cronista brasiliense.
Reproduzido do Correio Braziliense, de 20/04/2008.

 


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