Os Pecados do Velho Bispo

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Os Pecados do Velho Bispo
Por Clemente Luz

No ar da manhã, a voz de Inezita e os versos de Catulo acordam a paisagem. “Não há, ó gente, ó não!…” A melodia vem do rádio, flutua, ondulante, sobre as casas, entra pelas janelas dos edifícios em fase final de construção e se perde nas águas do lago, que alcançam, devagar, a cota mil…

Velho Catulo, grande Inezita, vocês dois, reunidos no mesmo sentimento largo da canção, com o mesmo manto da melodia e do poema, a cidade que nasce e os homens que marcham, através dos quadrantes, para o grande encontro.

E, para o encontro prometido e projetado, no coração do mapa e da terra, os veículos nacionais transportam homens do povo, governadores de Estado, senadores e deputados, chefes de empresas, padres e bispos…

Velho Catulo, grande Inezita, irmanados na mesma cera do disco, nós, com humildade, ouvimos, no ar da manhã ou no ar rarefeito da tarde, na cidade ou na floresta recém-aberta em estrada, a beleza da mensagem:

“Não há, ó gente,
ó, não!
luar como este
do sertão…”

Melodia e luar, que quebram protocolo, vencem obstáculos e fazem o coração do velho bispo pulsar com o ímpeto da juventude…

Comovente mesmo, na marcha das Colunas de Integração, foi a coragem do Bispo de Guamá, velhinho de cabelos totalmente brancos, que não teve medo de enfrentar a viagem, a mais longa e mais difícil: a da Brasília-Belém, estrada recém-aberta, ainda não concluída e sujeita a todos os perigos e tropeços.

O velho bispo, tomado de entusiasmo jovem, jogou para um lado, como inútil, o peso dos anos, e abandonou, por alguns dias, por desnecessária e impraticável, toda uma série de hábitos e ordens, para praticar, sem peias e sem constrangimento, todos os atos permissíveis a um bispo e a um velho, em tais circunstâncias…

Assim é que, enfrentando o frio da mata, vestido com o moderno “short” que lhe foi emprestado por um jornalista, participou, todas as tardes, do banho coletivo nas águas dos rios por onde passou a caravana norte.

A sabedoria e a idade lhe deram aos lábios um permanente sorriso, cheio de benevolência e de paciência.

Quando, no banho coletivo, os companheiros amenizavam o frio das águas e do meio ambiente com boas talagadas de aguardente ou uísque, o velhinho se esquivava dos copos, enquanto o corpo agüentava. Por fim, pedindo perdão pelo pecado enorme, aceitava meio cálice da preciosa bebida escocesa ou da nossa popular “pinga”… Sorridente e rejuvenescido, imergia, em seguida, o corpo velho e cansado nas águas renovadas e recém-conquistadas da floresta milenar.

Quando jornalistas, homens de empresa ou políticos, reunidos pelo espírito de irreverência, aproveitavam os últimos raios de sol para contar piadas, alguns picantes, o velhinho espetava o dedo no ar e dizia, entre um sorriso e a aparência de zanga, como que concordando, sem concordar de todo:

- Meus filhos, isso é pecado…

A verdade é que, após os primeiros dias da viagem, a oração, antes solitária, do Bispo de Guamá, era acompanhada, com devoção, por uns, com compreensão, por outros, e com respeito absoluto, por todos.

O velho Príncipe da Igreja, de coração jovem, era um companheiro impressionante, sábio e imprevisto.

Foi, talvez, a grande figura da extensa e desconfortável marcha.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 


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