OS OVOS DE BRASÍLIA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas, Converse com os Poetas 1 Comentário

Clarice Lispector escreveu:
“A luz de Brasília fere o meu pudor.
A solidão me deixa perdida.
O ar seco suga a minha pele.
Sugiro que coloquem, no centro, este símbolo:
um grande ovo branco”. Estas setas
não picaram a nova Capital,
mas  gongaram a minha descoberta:
os ovos que Brasília nos oferta.
O de codorna, no Memorial JK.
Em parêntese: Juscelino, novo
Colombo, botou o cerrado em pé.
Deve ser de dinossauro o principal,
servido em duas metades,
na mesa do Congresso Nacional.
O de pássaro da fé,
ao lado da Catedral.
O de cobra,  no Instituto Histórico
e Geográfico, enterrado no tempo.
Os dois bem duros para cozinhar,
na igreja Santa Edwiges,
padroeira dos endividados.
A casca fina só na aparência,
pois com proteção divina,
na Assembleia de Deus.
E o pedaço da casca que restou,
no Museu do Índio.
Aquece esta ninhada, de Dom Bosco
a voz premonitória: “E nascerá
ali a nova civilização”,
que alimentará o mundo obviamente
à força de seus ovos.
Por agora, Brasília aberta aos ventos
ouve os gemidos de reivindicação.
Sua luz assenta o foco na verdade.
Sua solidão pensa o futuro da dor.
E a seca ovoide enfim se quebrará
na omelete do amor.

Berecil Garray, poeta gaúcho, natural de Passo Fundo
Poema transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”, antologia de Ronaldo Alves Mousinho

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Comentários (1)

  • Gustavo Lemos

    |

    Achei aqui coisas que não encontrei em nenhum outro lugar. Parabéns

    Responder

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