Os goianos tramam contra os mineiros. E Goías vence a disputa pelo local da construção de Brasília.

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

- Ô moço, podia me emprestar esse livro ?Venerando Borges ofereceu o livro a Israel:- Doutor Israel, eu tenho outro exemplar, pode ficar com este.Selava-se naquele momento, com a entrega do livro, a rendição do último baluarte de resistência, e os goianos puderam respirar aliviados e voltar para casa.

Planalto Goiano ou Triângulo Mineiro ?

A escolha, no interior do país, do local onde se construiria a nova capital, processou-se através do trabalho de várias comissões técnicas e estendeu-se por muitos anos. O ponto de partida foi, naturalmente, o art. 3o. da Constituição de 1891, que fixara claramente onde seria o futuro Distrito Federal: no “Planalto Central da República”.

A expressão “Planalto Central” permitiu acirrada disputa entre goianos e mineiros, entendendo os ùltimos que boa parte do oeste de Minas situava-se no Planalto Central e seria muito melhor construir a nova cidade no Triângulo Mineiro, de terra férteis e dispondo já de excelente rede ferroviária (Estradas de Ferro Mogiana e Oeste de Minas), do que fazê-lo no planalto goiano, de terras pobres de cerrado, sem nenhuma estrada de acesso e distante mil quilômetros dos fornecedores de materiais de construção.

A tradição histórica pesou a favor de Goiás. O art. 3o. da Constituição de 1891 resultara de Emenda apresentada pelo deputado Lauro Müller, de Santa Catarina, e trazia como fundamentação argumentos do Visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo de Varnhagen, que defendia a construção da nova capital no planalto goiano. A primeira Comissão Técnica, conhecida como “Missão Cruls”, determinara com precisão, em Goiás, a área do futuro Distrito Federal (latitudes sul 15o10’35” e 16o8’35”/longitudes oeste 3o9’25” e 3o15’25”). Pesou a tradição e o mineiros perderam a batalha, a despeito dos fortes argumentos que apresentaram seus principais combatentes, Lucas Lopes e Israel Pinheiro, o primeiro como membro de uma das Comissões Técnicas (“Missão Poli Coelho”) e o segundo como parlamentar muito atuante.

O projeto de lei que criava a Novacap, encaminhado ao Congresso por Juscelino, localizava no planalto goiano o novo Distrito Federal.
Dez dias após encaminhar ao Congresso o projeto de lei, JK deslocou-se até Uberaba a fim de participar das comemorações do centenário da cidade e inaugurar a exposição agropecuária que anualmente ali se realiza.

Os goianos agitaram-se, preocupados. Sabiam que o projeto de lei da Novacap definia no planalto de Goiás o local da nova capital. Mas conheciam, por outro lado, o poder de fogo dos mineiros e temiam que, à última hora, conseguissem aprovar, na Câmara, uma Emenda ao projeto mandando construir Brasília em Minas Gerais, às margens do rio Paranaíba, na região de Tupaciguara, como sempre quisera Israel Pinheiro.
Acompanhando Juscelino, Israel estaria também em Uberaba, e lá estariam, ainda, todos os prefeitos das cidades mineiras vizinhas e o Governador Bias Fortes. Seria prudente, pensavam os goianos, neutralizar qualquer ação que pudessem intentar no sentido de mudar as coisas.

O perigo parecia real. Ainda recentemente Israel, ao sobrevoar o sítio em que se ergueria a nova capital, voltara-se para o companheiro ao lado, após olhar pela janelinha do avião, e comentara:

– Terra boa pra se criar calango…

O avião era da FAB, daqueles antigos, de bancos corridos, laterais. Ao lado de Israel quem estava sentado era Peixoto da Silveira, secretário de Finanças de Goiás, que prontamente rebateu:

– Boa também pra construir cidade!

Peixoto, mineiro de nascimento, radicara-se ainda jovem em Goiás, logo após terminar o curso de medicina, e já se considerava mais goiano que mineiro…
O prestígio de Israel junto a Juscelino era muito grande, e os prefeitos da região representavam forte apoio. Armaram, então, os goianos, uma pequena “operação de guerra”.
Havia em Uberaba, naquele tempo, um único jornal (“Lavoura e Comércio”) e uma única emissora de rádio. Ambos pertenciam a Quintiliano Jardim (da Silva), amigo de Juca Ludovico, governador de Goiás. Juca comunicou-se com Quintiliano e “comprou” todo o espaço do jornal e o tempo da emissora referentes ao dia 3 de maio (de 1956), data em que Juscelino estaria na cidade. Os meios de comunicação foram assim “neutralizados”.
Venerando de Freitas Borges, prefeito de Goiânia, encarregou-se de curiosa missão, como adiante se verá. Seguiu cedo, no dia 3 de maio, para Uberaba, na comitiva do governador Ludovico.

Na cidade mineira, Israel se hospedara no Grande Hotel, mas Juscelino aceitara ficar na residência do prefeito, que se chamava João e era por todos conhecido como João Prefeito.
Juca Ludovico foi ao encontro do Presidente. Na espaçosa sala de visitas do anfitrião, JK encontrava-se cercado por muitas pessoas. Ao ver o governador de Goiás, que entrava porta a dentro, Juscelino, que lhe tinha grande estima e o tratava com certa intimidade, saudou o governador com amistosa “interpelação”, ouvida por todos:

– Ô Juca, estou sabendo que naquela terra (da nova capital…) não dá nem abóbora ?

Como se sabe, abóbora dá praticamente em qualquer terreno. Silêncio se fez na sala, enquanto Juca aparava o golpe. Logo se refez e retrucou a meio sorriso:

– Presidente, se o senhor procura terra pra plantar abóbora, milho, feijão, existem outras melhores.

Fez pequena pausa e concluiu, recolhendo o sorriso:

– Mas se for pra construir a nova capital, melhor não existe não, Presidente, como dizem os relatórios de todas as Comissões.

Juscelino entendeu o recado, conduziu o governador, pelo braço, à poltrona ao lado da sua, e jamais voltou a tocar na questão.

A batalha, sem dúvida, fora definitivamente ganha naquele rápido e amistoso esgrimir.
Nesse meio tempo, Venerando Borges se dirigira ao Grande Hotel e ali aguardava, no hall de entrada, que Israel Pinheiro aparecesse. Trazia consigo um livrinho, uma brochura, cujo título era A Nova Capital do Brasil – Estudos e Conclusões. Esse livro fora preparado, algum tempo antes, por determinação do Governador Ludovico, e reunia os pronunciamentos das mais diversas personalidades brasileiras, acordes, todas, em que a localização da futura capital só poderia ser no planalto goiano. Encarregado de reunir, de compilar todo esse material e com ele produzir o livro, Segismundo de Araújo Mello lembrou-se de incluir na coletânea, como peça de abertura, o sonho-visão de D. Bosco. O santo teria profetizado, quase um século antes, a construção de Brasília. A primeira página do opúsculo trazia, assim, uma foto do santo com a legenda:

“São João Bosco, que profetizou uma civilização, no interior do Brasil, de impressionar o mundo, à altura do paralelo 15o, onde se localizará a nova Capital Federal.”

Era do conhecimento de todos a devoção de Israel a D. Bosco, o que se confirmaria mais tarde quando determinou que a primeira edificação de Brasília fosse uma capelinha (a Ermida) dedicada àquele santo. Tinha-se, por isto, a certeza de que Israel, se viesse a saber que D. Bosco antevira o surgimento de Brasília no planalto goiano e não em Minas, deixaria de lado sua teimosia e passaria a apoiar a solução goiana. Como fazer chegar, entretanto, às mãos de Israel, sem o carimbo de “endereço certo”, o providencial livrinho ?
Atento, o prefeito de Goiânia, quando Israel apareceu no Hotel, entrou com ele no elevador, como se fosse um outro hóspede qualquer, segurando o livrinho junto ao peito de tal modo que Israel pudesse ler o título, A Nova Capital do Brasil. Quando Israel viu o livro, não se conteve e pediu:

– Ô moço, podia me emprestar esse livro ?

Venerando Borges ofereceu o livro a Israel:

– Doutor Israel, eu tenho outro exemplar, pode ficar com este.

Selava-se naquele momento, com a entrega do livro, a rendição do último baluarte de resistência, e os goianos puderam respirar aliviados e voltar para casa.
Israel Pinheiro, a partir de então, nunca mais falou em Triângulo Mineiro, e durante a construção de Brasília transformou-se em legítimo candango, empenhando-se de corpo e alma em dar pronta, no prazo, a nova capital do país, no planalto de Goiás.

Do livro “Brasília: Memória da Construção”, 2a edição, tomo 1. de L.Fernando Tamanini.

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