O sonho de D. Bosco (II)

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O sonho de D. Bosco (II)

Dormindo na prece do seu silêncio
Desperto, ele vê uma cidade
Feita só de futuro e no fio
Das lendas tecida, imortalidade
 
Cerzida nos sonhos de um passado
Que edifica o terceiro milênio,
Dado aos passos dos imortais, fado
Que a chama doura, abrindo um rio
Humano, afluentes brotando nas
Hordas convocadas, toscos eleitos,
Construtores do amanhã, para a paz
Dos faraós da Terra em seus leitos.
 
Pirâmides sombreando o deserto
Junto ao Lago, o Planalto a defendê-los.
Povo recorrendo ao sonho encoberto
No barro vermelho sob paralelos.
 
Mas nem tudo era sonho profético.
Pesadelos herdados do passado
Fazem do Templo de Aton um cortiço
De generais monarcas, estiolado
 
Pelas alimárias armadas de ódio.
Dinastia do desvario, deuses
De pedra do ilogismo bravio,
O futuro marcado como rês,
 
A alvorada escurecendo o céu
Tingido de sangue, empanado véu.
Vislumbres de um difícil despertar
Na luz sonhada renascendo no ar.
 
Súbito, ele acorda, sobressaltado.
A vela, um ponto de luz no quartinho
Escuro. Abre as janelas para o prado.
À sua frente, a girar como moinho,
 
Fragmentos de uma noite e um sonho.
Tranqüiliza-se. Sabe que as noites
Portam sinais traduzidos aos homens,
E o sonho os conduz sempre ao seu caminho.
 
Paulo Porto, poeta brasiliense, nasceu em Brasília.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 


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