O sítio de Vargas

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O sítio de Vargas
 
Trabalho concluído, muita esperança dos mudancistas e nada mais. Depois do relatório da Comissão Poli Coelho, o assunto ainda se arrasta no Congresso por mais de cinco anos. Volta então ao começo: determinação de novo estudo da localização, mas agora fixado prazo máximo de sessenta dias para seu início e de três anos para a conclusão. É a Lei número 1.803, de 5 de janeiro de 1953. No artigo primeiro, ela autoriza estudos definitivos na região do Planalto Central compreendida entre os paralelos sul 15º30′ e 17º e os meridianos W.Gr.46º30′ e 49º30′ – o chamado Retângulo do Congresso -, visando á escolha do sítio da nova capital federal. No artigo segundo, define:
 
"Em torno deste sítio, será demarcada, adotados os limites naturais ou não, uma área aproximada de 5.000 quilômetros quadrados, que deverá conter, da melhor forma, os requisitos necessários à constituição do Distrito Federal e que será incorporada ao Patrimônio da União."
 
Em 8 de junho de 1953, o presidente Vargas assina o Decreto número 32.976, que cria a Comissão de Localização da Nova Capital Federal, presidida pelo general Aguinaldo Caiado de Castro, na época chefe da Casa Militar da Presidência da República. Este rapidamente contrata levantamento aerofotogramétrico completo dos 52 mil quilômetros quadrados do Retângulo do Congresso. Área tão extensa que incluía Anápolis e Goiânia, em Goiás, e parte de Unaí, em Minas. A aerofotogrametria é entregue em janeiro de 1954. A Comissão da Nova Capital então viabiliza assinatura de contrato entre a Comissão do Vale do São Francisco e a firma norte-americana Donald J. Belcher and Associates Incorporated, de Ithaca, Nova York, especializada em estudos e pesquisas baseados em interpretação aerofotogramétrica. Produtos: mapas básicos da região; relatórios gerais sobre cada área selecionada; relatório geral com os dados básicos dos vários sítios e acompanhado de modelos em relevo e fotos oblíquas, de modo a permitir a comparação dos respectivos atributos e a escolha do local mais adequado à implantação da nova cidade.
 
Ponto mais alto
 
Antes da conclusão dos trabalhos da Donald J. Belcher – duram de abril de 1954 a fevereiro de 1955 -, ocorre o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954. O mapa político do país muda radicalmente. Assume o vice-presidente oposicionista João de Campos Café Filho, potiguar de Natal, que substitui o general Caiado de Castro pelo marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque – paraibano de Cajazeiras, combatente na Primeira Guerra Mundial, idealizador da construção da Academia Militar das Agulhas Negras – na presidência da Comissão de Localização. Homem determinado, reto e decidido, Pessoa abraça o projeto como desafio pessoal. Entra nele de corpo e alma, quase obsessivamente. Antes de tudo, mergulha fundo nos estudos preliminares da Belcher. Eles apontavam cinco sítios, cada qual com mil quilômetros quadrados e pintado em cor diferente dentro do chamado Retângulo do Congresso. Verde, Vermelho, Azul, Amarelo e Castanho.
O marechal Pessoa decide conhecer pessoalmente a área. Apesar de idoso, não se poupa. Faz viagem extenuante. Toma avião no Rio de Janeiro, pousa em Pirapora, em Minas, e continua até Formosa, Goiás, onde passa a noite. No dia seguinte, voa para Planaltina, Goiás. Daí, de jipe, realiza várias incursões cerrado adentro na área estudada. No final, manda tocar para o ponto mais elevado, localizado no Sítio Castanho do mapa da Belcher, com até 1.172 metros de altitude. Mas não apresenta suas conclusões naquele momento. Prefere aguardar o término dos trabalhos contratados, que recebe menos de um mês depois, no final de fevereiro de 1955. É o Relatório Belcher sobre a Nova Capital da República, conhecido como Relatório Belcher. Finalmente, reunida em 15 de abril de 1955, a Comissão de Localização da Nova Capital compara vantagens e desvantagens das cinco áreas prioritárias para a construção da cidade. Opta pelo Sítio Castanho, 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina. Define também o perímetro do futuro Distrito Federal. Área: cerca de 5.850 quilômetros quadrados. Em maio de 1955, o marechal José Pessoa manda fincar cruz de madeira no ponto mais alto, considerada marco fundamental da cidade. É na atual Praça do Cruzeiro, onde há uma réplica. A cruz original foi levada para a Catedral Metropolitana. Profundamente católico, o perseverante Pessoa sugeriu dar à nova capital o nome de Vera Cruz. É lá no Cruzeiro, dois anos depois, maio de 1957, a cidade fervilhando de obras, que Dom Carlos Carmelo, arcebispo de São Paulo, rezará a primeira missa.
 
Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 


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