O segredo da Senhora

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Minha Senhora, conte-me seu segredo. De onde a Senhora tira tanta majestade, tanto vigor e tamanha beleza e altivez em dias tão áridos, donde nos falta o ar apesar da imensidão do céu e da multidão de áreas verdes? Me conte lá, por favor, como a Senhora consegue ser tão exuberante, viçosa, verdejante.

Toda Brasília deste setembro insano está coberta por um tapete amarelo-acinzentado, a grama murcha há muito pede clemência. (Exceto, claro, a Brasília que não tem medo da conta de água). Nessa Brasília esturricada, a Senhora surge lindamente vestida em seus muitos tons de verde, cabeleira black-power sustentando-se num tronco rijo que transmite segurança e mistério. De onde mesmo a Senhora tira tudo isso?

Sabemos todos os que a acompanham há décadas que a Senhora tem vários momentos de esplendor ao longo do ano e ao longo dos anos, sem que jamais tenha se deixado levar pelos ventos mais ou menos tormentosos da vida. Se chove, tudo bem, se não chove, do mesmo jeito.

A Senhora tem uma capacidade de suportar a espera, de florescer em qualquer circunstancia. Quando fica mais feia (grave injustiça, porque feia a Senhora nunca fica), quando a Senhora fica menos bonita, deposita plumas ao seu redor.

Agora, por exemplo, Brasília inteira está com a pele trincada, mas a Senhora exibe uma textura sedosa. Depois, todas as suas folhas vão cair e a Senhora ficará nua em pelo – com uma beleza de desenho de nanquim. Ficará longilínea e ereta como uma top model.

Quem não a conhece não sabe o que é aprender com o seu sábio silêncio. Pode começar, então. A Senhora, aviso a seus futuros fãs, vive há quatro décadas em frente ao Palácio da Justiça, do outro lado do Buriti. Esse é um bom momento para conhecê-la porque a Senhora está garbosamente verde.

São muitos os seus admiradores, caso disso não saiba. E são fiéis e leais à Senhora. Nenhum deles, porém, conhece mais a Senhora nesta Brasília do que Ozanan Coêlho, o eterno diretor de Parques e Jardins da cidade. Ele a admira tanto e tanto que já disse aos seus que, morto, quer virar cinzas e quer que elas sejam espalhadas em quatro pontos da cidade: na copaíba da 309 Sul, no buriti em frente ao palácio, no balãozinho em frente à sede da Polícia Federal e…na paineira em frente ao Tribunal de Justiça. A Senhora receberá então um pouco da substância que deu vida ao doutor Ozanan, o jardineiro de Brasília.

Ele conta que a Senhora era uma menina quando a viu pela primeira vez, em 1967, durante a construção da Praça da Municipalidade, que a produção rebatizou de Praça do Buriti. A idéia era limpar o terreno para construir a região administrativa de Brasília. Ozanan decidiu poupá-la, nem  sabia exatamente a razão. Hoje, sabe. A Senhora é uma paineira singular. Chega a florescer duas vezes ao ano, comportamento não muito comum à sua espécie. “Ela é toda cheia de lero”, diz Ozanan. E é protegida por lei.

Texto transcrito de “Crônica da Cidade”, de 22/09/2007.

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