O ritmo

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Certo dia, na festa que lhe foi oferecida pelos moradores da Cidade Livre, o Presidente JK perdeu, na face, os traços que a vida e as duras tarefas marcaram, através de anos de lutas. Cercado pelo carinho do povo humilde, sem ostentação ou artifícios, sentia-se à vontade até para atender a descontrolados e aborrecidos pedidos de autógrafos…
A festa era simples. Tão simples, que tinha até um espetáculo de Circo. Um tablado redondo, armado em frente ao palanque presidencial, deveria fazer vez de picadeiro. Redes desmontáveis, cordas, barras-móveis e outros aparelhos nômades, como o próprio circo, formavam o conjunto dos artistas pobres, mas fortes e sadios.
Variado e nada pobre, apesar do local e das circunstâncias, teve início o espetáculo. Nem bem o palhaço surgiu, com suas roupas bizarras e seus sapatões de metro-e-meio, desapareceu o homem, revestido de autoridade presidencial, para dar lugar, no corpo desgastado, ao menino pobre de Diamantina. O menino subiu do fundo da memória e tomou conta do homem… Brincou em seu coração, dançou em seus olhos, falou pela sua boca… O menino que disputava um direito à vida e ao trabalho, mas que queria divertir-se, enquanto era o tempo próprio. E foi como qualquer pessoa – grande ou pequena – que pagou entrada e tem direito ao espetáculo, que a voz, tão nossa conhecida, surgiu do meio do palanque, traduzindo a vontade do menino:
– Olhe a frente! Também quero ver…
Os jornalistas e fotógrafos, que se encontravam à frente, no palanque, tiveram de afastar-se, para abrir campo visual ao importante espectador. Alguns não tiveram outro recurso, senão sentar-se no chão empoeirado, ficando em plano inferior à linha de visão do Presidente.
O menino, que acabara de acordar do sono diamantinense, que durou mais de cinqüenta anos, brincava nos olhos alegres do homem de Brasília. E movimentavam suas mãos em aplausos quentes e contínuos ao palhaço, quando este, em marcha militar, tocava simultaneamente, como os palhaços de todas as idades, o bumbo e os pratos… E soprava a pobre gaita sem ritmo e melodia! Depois, surgiu Chita, o chimpanzé amestrado, que andou de triciclo, de bicicleta, de perna de pau e que, finalmente, como verdadeiro artista, se equilibrou, de todas as maneiras, na corda bamba. O Presidente aplaudiu com tanto ou maior entusiasmo do que suas filhas Márcia e Maristela que, em plena floração da juventude, estavam a seu lado, assistindo ao desabrochar de rasío da juventude, estavam a seu lado, assistindo ao desabrochar de Brasília, como grande flor de cimento e aço, modelada pela mão do artista.
O menino continuava brincando nos olhos de Juscelino, presidenciais olhos cinqüentenários. Não perdia um mínimo do espetáculo.
…aí, então, vieram um homem e uma mulher com vestimentas de ginastas, caminharam, graciosamente, em torno do picadeiro, fizeram mesuras ante o palanque presidencial e cumprimentaram os espectadores. Passaram, em seguida, a exibir-se nas barras-móveis, demonstrando preparo físico e perícia. Depois, passaram para o trapézio improvisado, numa exibição de verdadeiros mestres. Os aplausos, demorados e quentes, parece que esquentaram o sangue dos atletas… O homem se dependurou do trapézio, pelas pernas, e segurou a mulher pelos braços, num jeito de segurar total e tranqüilo.
Um fundo levantou a mulher até que os rostos se tocassem uma, duas, três vezes… sem tomar fôlego. Quatro, cinco, oito, nove… ainda sem qualquer descanso. Dez…
O esforço dos artistas fazia o cansaço descer sobre os corpos dos que assistiam à demonstração. Um velho arquejava, no palanque, e uma mulher, a pouca distância, suava abundantemente.
A contagem começava a tomar jeito de drama, forma de dor.
O Presidente, como que reconhecendo a enormidade do esforço, gritou repentinamente, contra a vontade do menino, que queria ver até o fim:
– Chega!
E repetia, a cada nova execução do número:
– Chega! Chega! Não é possível!…
Parece que a sua palavra serviu mais de incentivo do que de apelo ou ordem.
O atleta ergueu ainda dez vezes ou mais a sua "partenaire".
A platéia nem respirava direito.
Israel Pinheiro, que estava ao lado de Juscelino e das mocinhas, comentou, como quem quer dar explicações sobre o inexplicável:
– Eles trabalham em ritmo de Brasília! A culpa é sua, meu caro Presidente…
Juscelino ficou sério, mas o menino deu uma bruta gargalhada, que entrou pelo coração adentro do povo, repercutindo nas ruas da Cidade Livre e caminhou até os novos edifícios, que anunciavam, na luz da manhã, a realidade de Brasília.

Clemente Luz
Extraído do livro "Invenção da cidade"

 


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