O regresso

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

O regresso
 
Mais uma vez te visito, cidade encantatória.
Foi longa a ausência, eu sei.
Mas como esquecer-te, se as chuvas
do Campo da Esperança ainda regam meu pai,
minha mãe, Cecília, Henrique e tantos amigos!
Voltei para rever-te.
Longe os dias antigos de risos e visitação,
é preciso, amigos, visitar o Palácio da Alvorada;
na capela, até os azulejos meditam.
É preciso, amigos, fotografar a Catedral;
conferir, passo a passo, a Esplanada dos Ministérios,
depois subir de novo até a Igrejinha de chapéu de freira
onde, tantas vezes, dialoguei com anjos;
assegurar-me que D. Bosco ainda zela por teus habitantes.
Muito, muito tenho caminhado, cigana andarilha e melancólica.
Ai, não sei se me reconhecerás.
Talvez  não seja eu a mesma e nem tu.
Crescente em espaço e sonho.
Asfalto, pedra, cimento, triunfam sobre a grama.
As cidades adjacentes, com seus tentáculos,
ameaçam sufocar-te.
Surpreendo tua nova ponte, emergindo do lago,
feita só de curvas, delírio e obstinação,
quase encostando no céu.
Mas permanece, intacto, o azul.
Abro uma janela imaginária,
como tantos anos atrás
e percebo que não prevalece a noite, ainda.
Ouro, sangue e púrpura consagram a paisagem:
uma nova hora se inaugura.
O vulto de meu pai volta do passado,
vem se unir a mim e extasiado, murmura:
– Esta cidade devia se chamar Belo-Horizonte.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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