O que disse JK…

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

O que disse JK…
 
A primeira portaria que Israel Pinheiro assinou, ao assumir a presidência da Novacap (Portaria número1), foi a que designava Pery Rocha França assistente da Presidência.
Dos que privaram com Israel, talvez tenha sido Pery um dos amigos mais chegados. Engenheiro de profissão, Pery se tornara, entretanto, conhecido e amado na capital mineira por um dom que Deus concede a poucos: a beleza da voz. Consagrado cantor de ópera, sua escolha viria a provocar, no seio da Oposição, comentários maldosos. Mas a inegável competência profissional o levaria, logo depois, ao cargo de chefe do Departamento de Edificações da Novacap e, posteriormente, à própria presidência da Companhia.
Dentre os compromissos de Pery em Belo Horizonte, à época em que Israel o convocou, um lhe era particularmente grato: o de Diretor da Universidade Mineira de Arte. E foi a Universidade que o fez portador de um álbum, para ser entregue a Israel.
Na primeira página do álbum, emolduradas por vinheta verde-amarela, estavam escritas as seguintes palavras:
 
         "Este livro é oferecido ao Excelentíssimo Senhor Doutor Israel Pinheiro da Silva,
         Presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, pela
         Universidade Mineira de Arte, para que nele se registrem os nomes de pessoas
         ilustres que visitem Brasília durante sua construção"
 
O álbum, luxuosamente encadernado em couro marrom, trazia em sua capa, gravado em finos traços dourados, o quadrilátero do futuro Distrito Federal, com o sítio da nova capital assinalado. À esquerda, um pouco abaixo, também em dourado, havia um desenho representando a Ermida Dom Bosco, cuja sombra, projetando-se para a direita e para cima, invadia a área do quadrilátero, terminando com a pequena cruz do vértice da Ermida exatamente sobre o minúsculo círculo que assinalava a cidade de Brasília.
 
Por algum tempo Pery ficou encarregado, ele próprio, da guarda do álbum e de apanhar as assinaturas dos visitantes ilustres. Mas teve o cuidado de reservar as primeiras páginas para algumas palavras de Juscelino.
 
Cada vez que JK visitava as obras, Pery lhe "cobrava" a mensagem para o álbum. O Presidente prometia, mas na viagem seguinte se desculpava, explicando que "se esquecera". Até que um dia, ao descer do avião e avistar Pery entre os que estavam à sua espera, foi logo enfiando a mão no bolso e dizendo: ‘aqui está o que você pediu". E entregou a Pery a mensagem datilografada, com sua assinatura. Pery ficou com o papel, mas posteriormente pediu a Juscelino que transcrevesse a mensagem no álbum e o Presidente o fez de próprio punho:
 
"Parecendo um sonho, a construção de Brasília é uma obra realista. Com ela realizamos um programa antigo: o dos Constituintes de 1891. É um ideal histórico: o dos Bandeirantes dos séculos XVII e XVIII. Brasília significará uma revolução econômica. Estamos erguendo-a com aquele espírito de pioneiros – antigo nos homens que desbravaram os sertões, moderno em nossas almas ansiosas por fundar uma civilização no coração do Brasil. Do ponto de vista econômico, Brasília resolverá situações não esgotadas, porque vai criar um novo centro de gravidade para maior equilíbrio, melhor circulação e mais perfeita comunicação entre o Norte e o Sul."
 
"Politicamente, Brasília significa a instalação do Governo Federal no coração mesmo da nacionalidade, permitindo aos homens de Estado uma visão mais ampla do Brasil como um todo  e a solução dos problemas nacionais com independência, serenidade e paz interior."
 
"Na 1ª. História do Brasil que se escreveu, a de Frei Vicente do Salvador, nos primórdios do século XVII, já  observava o seu autor que a colonização se fazia como a de caranguejos, agarrados ao litoral. Euclides da Cunha acrescentava, profeticamente, no limiar do século XX, que o drama político e sociológico do Brasil continuava a ser a separação, com  a disparidade de estilos de vida, entre o litoral e o interior, como se fôssemos duas nações dentro de uma mesma nação."
 
"Agradeço a Deus o privilégio que me concedeu de encarnar, como Presidente da República, o espírito pioneiro e o sentimento nacional que me deram inspiração e força para erguer Brasília no coração do Brasil, com o sentido de transformação e transfiguração do meu país."
 
"Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta Alvorada com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino."
 
Na hora de datar e assinar, Juscelino, como já o fizera n folha datilografada, registrou não a data do dia em que estavam, distante da sua primeira visita ao local, mas exatamente a data da visita:
 
                                                          Brasília, 02 de outubro de 1956
                                                                Juscelino Kubitschek
 
 
Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de L.Fernando Tamanini

 


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