O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

Tudo isso inspirou, direta ou indiretamente, os escritores que para aqui vieram, e – já agora o podemos dizer – há de ser sempre a melhor referência para os escritores que aqui nasceram e aqui vivem e produzem.

Lembrados e reverenciados esses fundamentos é que devemos voltar nossos olhos para a poesia que se tem feito em Brasília, para uma literatura de Brasília.

Dentre os primeiros poetas de Brasília, pioneiríssimo foi o gaúcho Antonio Carlos Osório, advogado, aqui aportado em 1957. Também o foi Adirson Vasconcelos, cearense chegado nesse mesmo ano. Diplomado em Direito e Administração, destacar-se-ia como historiador da nova capital a partir da obra de estréia, “O Homem e a Cidade” (impressa nas oficinas gráficas de A Tribuna de Brasília, no Núcleo Bandeirante, então chamado Cidade Livre, em 1960), tida como o primeiro livro publicado nesta capital. Figura nesta memoria por ser também poeta. Outro advogado poeta dos primeiros tempos foi o goiano José Godoy Garcia, chegado no ano da inauguração.

Pioneiros vindos para implantar as lides do magistério foram o gaúcho José Santiago Naud e a mineira de Cataguases Lina Tâmega Peixoto Del Peloso, além de Cyro dos Anjos, um dos fundadores da UnB, Gilberto Mendonça Teles e Jair Gramacho.

Joanyr de Oliveira, ao chegar, já era publicado, mas amadureceu verdadeiramente como poeta em terras brasilienses. Lançou a primeira obra literária da Cidade, a antologia “Poetas de Brasília”. Organizou outras excelentes antologias poéticas, indispensáveis para quem queira estudar a história das letras neste torrão do Planalto. Novos antologistas do gênero viriam: Napoleão Valadares, Nilto Maciel, Salomão Sousa, Santiago Naud, mais Soter, Danilo Alvim e Carlos Saldanha, o editor-poeta Victor Alegria, Alan Viggiano (também como editor), Menezes y Morais, Sofía Vivo, Sônia Ferreira, Ronaldo Cagiano e Ronaldo Alves Mousinho, entre outros.

José Helder de Sousa, jornalista e poeta, dirigiu o suplemento literário do Correio Braziliense.

Almeida Fischer, contista, romancista e crítico literário, no fim da vida praticou o poema. Fundou a Associação Nacional de Escritores, que comemora o cinquentenário em 2013, a Academia Brasiliense de Letras e a Academia de Letras do Brasil. Autor de nossa primeira antologia de contos, Contistas de Brasília. É justamente considerado o maior aglutinador literário da Cidade.

Também dos primeiros anos candangos são Afonso Félix de Sousa, Alan Viggiano (mais conhecido como romancista, contista e ensaísta), Astrid Cabral (que estreou magnificamente no conto), Clovis Sena, Edson Guedes de Morais, Esmerino Magalhães Júnior, Ézio Pires, Fernando Mendes Vianna (grande poeta e tradutor de poesia), Guido Heleno (1958), Hugo Mund Júnior, Jair Gramacho, Jesus Barros Boquady, José Geraldo Pires de Mello, José Jerônimo Rivera (notável tradutor de poesia), Lourdes Teodoro (1959), Marlene Andrade Martins (1957), Oswaldino Marques (forte ensaísta), Paulo Bertran (1958), Pedro Luiz Mais, Romeu Jobim (também contista e cronista), Stela Maris Rezende, Yone Rodrigues.

Vindos para Brasília com destino ao magistério superior, Domingos Carvalho da Silva e Cassiano Nunes, de notória influencia em nosso desenvolvimento literário.

Outros aqui chegados na primeira década (advirto que a lista é incompleta, mas não há memória nem tempo suficientes para esgotá-la): Affonso Heliodoro, Afonso Henriques Neto, Angélica Torres Lima, Ângelo D’Ávila, Antonio Miranda, Ariel Marques, Aureo Mello, Branca Bakaj, Climério Ferreira, Diniz Felix dos Santos, Eudoro Augusto, Fernando Correia Dias, Ferreira Gullar, Heitor Humberto de Andrade, Henriques do Cerro Azul, Hermegildo Bastos, Isolda Marinho, João Carlos Taveira, Joilson Portocalvo, Júlio Cezar, José Sarney, Lenine Fiuza, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Meireluce Fernandes, Napoleão Valadares, Reynaldo Domingos Ferreira, Terezy Godoi, Vera Americano, Vili Santo Andersen.

Nos decênios seguintes: Adão Ventura, Aglaia Souza, Alexandre Marino, Altino Caixeta de Castro, Amneres Pereira, Antonio Roberval Miketen, Antonio Temóteo, Bernardo Elis, Celso Moliterno, Cyro José Tavares, Cristina Bastos, Cyl Gallindo, Danilo Gomes, Danilo Lobo, Donaldo Mello, Emanuel Medeiros Vieira, Eugênio Giovenardi, Fernando Fraga, Flávio R. Kothe, Gustavo Dourado, Heitor Martins, Hindemburgo Dobal, Jarbas Júnior, João Bosco Bezerra, Jorge Amâncio, Jorge Antunes, José Carlos Peliano, José Peixoto Júnior, Kori Bolivia, Luiz Manzolillo, Márcio Catunda, Marcos Freitas, Marly de Oliveira, Paulo José Cunha, Pedro Tierra, Reynaldo Jardim, Ronaldo Alves Mousinho, Robson Corrêa de Araújo, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Costa Fernandes, Salomão Sousa, Viriato Gaspar, Wilson Pereira, Yolanda Jordão. Se não me engano, também vieram nessas levas Alvina Gameiro, Ivanir Geraldo Vianna e Osmar Brasil. Os inicios deste século revelam poetas como Augusto Rodrigues e Alberto Bresciani.

Escritores de envergadura passaram por Brasília, exercendo funções diversas, cargos públicos ou mandatos legislativos, sem contudo participar da vida literária local. Dentre os poetas que se incluem nessa categoria lembro os nomes de Abgar Renault, Joaquim Cardozo, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, J.G.de Araújo Jorge, Álvaro Pacheco.

Mencionem-se, dentre os estrangeiros, os portugueses Agostinho da Silva, António Campos e João Ferreira, o uruguaio Manini Ríos, o argentino Rubén Vela, o búlgaro Rumen Stoyanov, a venezuelana Trina Quiñones, os espanhóis José António Pérez e Alicia Silvestre Miralles, o equatoriano Eduardo Mora-Anda, o polonês Henryk Siewirski, o bielo-russo Oleg Almeida.

Já eram conhecidos como poetas, antes de virem para Brasília, Afonso Félix de Sousa, Alphonsus de Guimaraens Filho, Cassiano Nunes, Domingos Carvalho da Silva (prócer da Geração de 45), Fernando Mendes Vianna, Ferreira Gullar, Gilberto Mendonça Teles, Lina Tâmega Peixoto (co-fundadora da revista Meia Pataca, de Cataguases), José Santiago Naud (premiado em concursos de âmbito nacional), José Godoy Garcia, Marly de Oliveira, Oswaldino Marques, Waldemar Lopes.

Joanyr de Oliveira tornou-se conhecido mercê, especialmente, de suas cinco grandes antologias poéticas. Astrid Cabral, Francisco Alvim, H. Dobal, Hugo Mund Júnior, Ronaldo Cagiano ganharam notoriedade; Ronaldo Costa Fernandes vem sendo destacado como poeta e ficcionista, e Wilson Pereira como poeta e autor de literatura infantil; também alguns dos “novos” sobressaem, a exemplo de Afonso Henriques Neto, Nicolas Behr e Turiba. Se nomes me escapam, não serão muitos.

A verdade, porém, é que Brasília não foge à regra circunstancialmente imposto à poesia brasileira – que se encastela, não por vontade dos poetas, nas respectivas províncias, inclusive a província do Rio de Janeiro e a província de São Paulo (estas se beneficiam de sediar veículos de circulação nacional). Desde a transformação dos antigos suplementos literários nos atuais suplementos culturais (no sentido de ser tudo cultura, do futebol à política, do sistema penitenciário às histórias em quadrinhos, e assim ad infinitum), desde a sucumbência do parque editorial às imposições extremas do capital, e sobretudo desde a infeliz abolição do remédio para esse quadro, remédio de eficácia limitada, mas o único até então, que era o Instituto Nacional do Livro.

Texto transcrito do Jornal da ANE, edição outubro/novembro 2012.

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Comentários (2)

  • Trina Quiñones

    |

    Amoroso texto, Maestro Anderson Braga Horta.
    Saudades
    Trina Quiñones.

    Responder

  • Trina Quiñones

    |

    Bello texto, Maestro Anderson Braga Horta.
    Saudades
    Trina Quiñones.

    Responder

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