O Pássaro de Asas Brancas

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Quando tudo estiver terminado e não restar de nós, bípedes falantes, nada além de pegadas arqueológicas, um pássaro de vidro, mármore e concreto permanecerá pousado numa península à beira de um lago, como testemunho de que uma civilização ali existiu, num lugar onde não jorrou leite e mel, como fora previsto. Jorrou poesia em concreto armado e vontade de mudar, pra melhor, o jeito de viver coletivamente.

Juscelino não gostou do primeiro esboço que Oscar Niemeyer lhe apresentou. “Examinei-o com a maior atenção e conclui que, apesar do seu esforço, ele não havia emprestado à obra a monumentalidade que se impunha à residência do chefe de governo”. O primeiro projeto do Palácio da Alvorada era uma obra-prima, mas não refletia o que o presidente desejava. “O que eu quero, Niemeyer, é um palácio que, daqui a cem anos, seja admirado”.

O arquiteto sorriu, pegou o projeto inicial e voltou para a prancheta. Passou a noite nela, segundo JK, em “Por que construí Brasília”. No dia seguinte, Niemeyer ainda pegou Juscelino tomando café no Catetinho. Estendeu um rolo de papel sobre a mesa e o que estava desenhado incandesceu os olhos do presidente. “Ali estava um edifício que era uma revelação. Leveza, grandiosidade, lirismo e imponência – as qualidades mais antagônicas se mesclavam, interpenetravam-se, para realizar o milagre da harmonia do conjunto”.

Dizem os críticos que o Palácio da Alvorada é uma escultura e por isso desconfortável para moradia. O Alvorada não é casa para-sempre de quem quer que seja. É a casa-hospedaria do presidente da República. E ele está ali para compor a solenidade que um palácio exige. É o palácio de um país que quis mostrar ao mundo sua própria capacidade de invenção. Todo revestido de vidro, abre-se para um extenso gramado à frente, e para uma piscina monumental e um lindo jardim que se desdobra até o Lago Paranoá, ao fundo. De noite, o Plano Piloto aparece salpicado de estrelas, cada vez mais salpicado de estrelas. E de dia, tremendo na miragem que a excessiva claridade produz.

Perguntaram a Juscelino por que aquele nome, Palácio da Alvorada, e ele respondeu: “O que é Brasília senão a alvorada de um novo dia para o Brasil?”

Se não é, foi porque não tivemos competência para tanto.

Quando tudo estiver terminado, o pássaro translúcido continuará de asas abertas para seu contínuo vôo rasante sobre uma península que se derrama num grande lago. Pássaro de asas desenhadas por um instante genial de criação, asas sinuosas, em forma de leque invertido e pontiagudo, que unidas umas as outras juntam dois Brasis – o moderno, que estava se inventando como nação,  e o colonial, de onde ele veio, com suas casas de varandas e redes dependuradas. Os dois Brasis num Alvorada que, 50 anos depois, é, das obras de Niemeyer, a mais flutuante – e olha que o cara sabe fazer o concreto voar.

Conceição Freitas
Reproduzido do Correio Braziliense, “Crônica da Cidade” (29.06.2008)

 


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