O Nordeste em Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

O Nordeste em Brasília
   Por Ana Miranda
 
 
Meados dos anos 1950, quando espalhou-se pelo Brasil que iam construir a nova capital, levas de pessoas das regiões brasileiras formaram uma torrente humana no rumo daquele novo Eldorado, muito delas vindas do Nordeste. Mesmo sendo uma cidade encravada em Goiás e tão próxima de Minas, Brasília recebeu uma forte presença nordestina, especialmente pela chegada de trabalhadores do campo, movidos pela fé no sonho brasiliense. Mudavam-se numa longa odisséia, sentados em bancos de tábua, dormindo pelas matas, ou viajando dia e noite, quase sem comer. Inúmeras vezes assisti à chegada desses caminhões "paus-de-arara", que freavam de repente, abria-se a parte traseira da carroceria e desciam homens, mulheres, crianças, com as pernas bambas, magros, extenuados pela viagem. Uns ajudavam os outros a saltar, retiravam sua trouxa, olhavam para os lados, com a expressão entre felicidade e o medo, e saíam caminhando sem rumo. Uma vez, vi um senhor todo de branco, que saltou da carroceria e caiu, levantando-se com as roupas tingidas da poeira vermelha. Minha mãe dizia que ficava com o coração apertado, olhando os conterrâneos nordestinos. Eu também ficava…
Eram pessoas honradas, estóicas, corajosas, meigas por natureza, mas bravas por instinto, quando ofendidas. E trabalhadoras… E versáteis… Desciam na Cidade Livre, ali se instalavam precariamente. Faziam uma ficha e de lavradores passavam a pedreiros, encanadores, serventes, carpinteiros, podendo então morar nos acampamentos das construtoras ou nos barracões da Novacap. Ganhavam logo o apelido de sua origem, Alagoas, Baiano, Paraíba… Esse costume mostra o sentimento de uma cidade fundada por todas as naturalidades brasileiras. Criava uma espécie de rede de amizades entre os candangos.
Só os operários eram chamados de candangos. Eu gostava dessa palavra, candango… parecia nome de ritmo musical… Achava graça, porque muitos candangos nordestinos trabalhavam com um chapéu feito de dobraduras de folha de jornal, levando um barco de criança sobre a cabeça. Dobravam também o horário de trabalho para dobrar o salário. Lembro das filas na rua, no dia do pagamento, em frente a um peão com uma mala cheia de dinheiro. Dizem que o teste para o trabalho na construção de edifícios era atravessar uma trave fininha e alta, sem vertigem (está lá, no interessante livro de Edson Béu, Expresso Brasília). Muitos desses malabaristas despencavam e eram enterrados sem identificação. Outros comemoravam a chegada ao último andar. Eu sabia dessas festas das cumeeiras, quando o alto da estrutura era enfeitado com palmeiras e subia a fumaça do churrasco, congraçando-se o pessoal todo da obra. Também me recordo do tratorista cearense que me levava, e as outras crianças, para uma das brincadeiras mais emocionantes, o passeio a trator. E do paraibano vendedor de algodão-doce.
Mulheres nordestinas chegaram para formar as famílias, ou para trabalhar nas casas de família, e trouxeram para a cidade seu modo de cozinhar, de se vestir, educar as crianças, de falar, de organizar o dia-a-dia. Minha mãe fazia tapiocas em casa, cuscuz, peixe ao leite de coco… Imagino seu trabalho para encontrar os ingredientes. Vieram a arte e as cantigas nordestinas, quantas vezes ouvi cantadores entoando repentes, no vazio do Planalto… Com a seca de 1958, uns 5 mil flagelados desceram na cidade e fizeram barracos às margens da rodovia de Anápolis, sem água, luz, alimento, e sem condições de trabalhar, de tão maltratados. Provocaram a primeira convulsão social de Brasília, até que foram transferidos para a nascente Taguatinga e viraram cidadãos brasilienses. Também chegaram à primitiva cidade engenheiros, arquitetos, advogados, comerciantes, professores, militares, empresários, e tantos outros profissionais nordestinos, alguns, homens de grande vulto, como o economista paraibano Celso Furtado… tantas das grandes famílias nordestinas, Jereissati, Cavalcanti, Souza Leão… e o próprio desenhista da cidade, Lúcio Costa, nascido na França, mas filho de um baiano.
 
Extraído do Correio Braziliense, 16/03/08

 


Trackback do seu site.

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …