O Mito

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

O Mito
Por Clemente Luz
 
Contam-se muitas histórias dos primeiros dias de Brasília.
Dizem que, quando foi o tempo da formação do Núcleo Bandeirante, depois de demarcado o traçado da primeira avenida, surgiu o problema sério: os homens tinham que comer. Não naquele dia apenas, mas nos dias seguintes, até o final da construção de Brasília.
Dizem que Sayão, com o seu porte de líder, estendeu o braço, chamou o motorista e entregou-lhe uma lista de nomes, dizendo-lhe:
– Vá a Ceres e traga esse povo. Diga que mandei chamar. Que venham todos com a tralha e a família.
E hoje a gente encontra essa gente de Ceres, que Sayão mandou buscar.
O Vovô, por exemplo, que plantou barraca inicialmente perto da ponte da antiga estrada de Planaltina, e que tinha o Bar Vera Cruz, ao lado do Cinema Bandeirantes, gosta de contar como foi a marcha de Ceres a Brasília.
Abre uma cerveja muito gelada, explicando antes:
– Na minha casa nunca falta cerveja bem gelada, porque não deixo ninguém meter a mão na geladeira. Quando vou pegar uma garrafa, já levo outra pra pôr no lugar…
Depois, curva-se sobre o balcão:
– Eu tava muito bem do meu em Ceres, cuidando de minha vida, quando chegou o caminhão e parou na minha porta. O motorista entrou, mostrou o papel e disse:
– Vovô, o dotô Sayão mandou le chamá pra fazer Brasília.
E o bonachão e próspero dono de bar, com os cabelos grisalhos, cercado por uma dezena de filhos, diz:
– Nem discutimos. Com o dotô a gente não discutia…
Veio, e aqui já encontrou o lote demarcado, e a tarefa que deveria cumprir.
– Eu tinha de montar pensão pra fornecer pros trabalhadores. Outros tinham de fazer pão, de cortar boi, de vender arroz e feijão.
Se alguém indaga por que veio, assim, atendendo apenas a um recado, ele diz:
– Se vosmicê conhecesse o dotô Sayão, não fazia a pergunta!
E, de história em história, nós, que chegamos depois, fomos sentindo que um personagem se transformava em lenda, se transfigurava, à medida que Brasília tomava contornos de cidade. Era Bernardo Sayão, cuja história é a própria história da conquista do planalto e cuja estatura máscula mais parecia uma coluna sustentando os blocos de cimento e ferro do primeiro edifício da cidade.
 
Clemente Luz,
Reproduzido do livro "Invenção da Cidade".

 


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