O meu tio Bernardo

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O meu tio Bernardo
 
O meu tio Bernardo,
cruzando tais paragens há cem anos,
mais de cem anos, viu subitamente
transmudar-se o que era
ermo, somente o ermo,
e na valada
linda cidade branquejando.
"Aí murmurará a voz de um povo",
num verso registrou.
 
Estou a vê-lo daqui, de austeras barbas
e chapéu sertanejo, surpreendendo
nos rios
torres, palácios, coruchéus brilhantes.
E a tudo, a tais visões,
e à paisagem em que seus olhos tinham
a paz, total, do ermo, a tudo
envolvia
e especialíssima ternura bernardina,
a que nunca faltou sabor agreste
de algum suco de cana, e do ponteio
longínquo (dir-se-ia que inaudível
e tão longínquo)
de uma viola…
 
Alphonsus de Guimaraens Filho, poeta mineiro, natural de Mariana.
"Poemas para Brasília", de Joanyr de Oliveira

 


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