O império tapuia do cerrado

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... 1 Comentário

Por Ana Miranda

O cerrado em quase todo o seu território foi povoado pelos índios jês, que eram tapuias, o que foi chamado por Paulo Bertran de “O império tapuia do cerrado”. Um império indígena. Bela a imagem com que Bertran homenageia os índios do cerrado, porque império, além do território governado por um imperador, significa estado muito importante ou vasto, de caráter mesclado. “Império sólido, rústico, incomunicável à língua-geral e aos modos comuns mais flexíveis…”

Tapuia foi o nome dado pelos índios que falavam tupi-guarani aos que se expressavam em outras línguas. Se falavam uma língua diferente, também os costumes eram diferentes, como o de morar em casas cavadas na terra e não naqueles casarões de palha. Os jês eram povos errantes, savaneiros, guerreiros bravios, caçadores, caceteiros, hábeis em quebrar crânios humanos. Avessos ao contato com o branco, com quem lutaram por longo tempo. Muitos são os nomes de famílias, grupos, tribos, etnias. Akwen, avá-canoeiro, tenetehara. Goiases, quirixás ou crixás do Planalto, régulos matadores, acroás. Carabás. Havia tapirapés nas margens do rio Tocantins e guajajaras e aricobés que eram ilhas tupis. Acoroaçus. Açus, xacriabás. Caiapós, xavantes, xerentes. Araés, abaixo do rio das Mortes. Os temidos canoeiros, e os apinagés que são timbiras ocidentais, e orientais os krahós. Os preguiçosos capepuxis no Araguaia e os arauaquis ou aroaquis e bilreiros. Javaés, xambioás…Bareris. Os carajás, carajaúnas, carajapitanguás, “moles e patifes”, dizia um capitão-mor. Xacriabás removidos. Cayapós de mossâmedes, gorotires, gradahus…Caiapós eram “o mais bárbaro e indômito de quantos produziu a América.”

Os goiases, ou goiazes, ou goyazes, que deram o nome a Goiás, eram comedores de caranguejos, goiá é caranguejo em tupi, diz Bertran. Da palavra Goiás derivam goianazes, goitacazes e talvez cataguazes. Dos goiazes derivam goianos e alguma gente de Brasília, com olhos puxados. Quem tem um espelho? Os goyazes eram bonitos, de pele clara, acolhedores, de trato ameno. Interessante, diz Bertran, no século 18 ocorriam casamentos de brancos com gente da terra, gentios, ou índios, quase não havia mulheres brancas e aconteciam esses casamentos, mesmo de senhores com índias, que davam ensejo à adesão da tribo aos interesses senhoriais, alguns senhores passavam a ter, pelo casamento com uma índia, poder parental sobre a gente indígena, e usavam esse poder para conseguir escolta durante viagens, conhecimentos de caminhos e geografias, de remédios, de alimentos, proteção a suas fazendas, descobertas de ouro e minérios, pois, se o índio não usava o ouro em suas artes, com certeza sabia onde encontrá-lo brilhando à madre das águas e entre cascalhos e rochas.

Casar-se com uma índia, revelou Bertran, eram muitas vezes um motivo de dignidade. Aumentava o poder senhorial com um exercito de guerreiros não inimigos. E Bertran imaginou colonizadores solitários a namorar belíssimas índias, tornando-se cunhados de guerreiros e senhores da natureza, a buscar recursos e sobrevivência. Ele se lembra, mesmo, de um decreto real estimulando a povoação do território, ainda que fosse com filhos de colonos com índias. Crianças e adolescentes indígenas iam se criar em lares vilarengos. Rapazes iam para Portugal, e voltavam padres. Índias “lindas, ainda moças, muito claras e benfeitas” eram mandadas de presente. Alianças nupciais com bandeirantes. Noites inesquecíveis de amores. Os catequisados fingiam que trocavam de crença. Não mais reinavam.

Acabou-se o império dos tapuias. Foi uma grande perda que a historia não soube evitar. Uns grupos ficaram reduzidos a poucos sobreviventes, ou foram habitar em outras matas. Vencidos, aldeados. Morriam famintos, acossados, ou de doenças brancas. Os pacíficos eram escravizados. Os bravios eram mortos. Matanças por séculos. De uns 30 mil restaram uns 4 mil, em meio século, o 19. O cerrado perdeu o seu império vermelho. Ficou a terra vermelha. Ficaram rios vermelhos, serras douradas…A musica indígena é rica, variada, única e universal. A cerâmica, a arte das plumas, as cestas, os grafismos, os mitos, as lendas, o modo de conviver com a natureza, as ciências e magias… tudo rico, variado, único e universal. Tudo nosso. Um tesouro que faz muito mais falta do que o ouro levado.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de maio de 2013.

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Comentários (1)

  • Alcina Freitas

    |

    Gente, esse sitio tem que ser visto em todas as escolas de Brasília, do Brasil e do mundo

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