O espírito de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

 

Trabalhávamos em pleno sertão deserto, a mil quilômetros dos principais centros do país. O isolamento em que de repente nos vimos, com gigantesca tarefa a ser enfrentada partindo da estaca zero, terá também contribuído para a solidariedade dos homens a quem a Providência reservara a felicidade do trabalho com alegria – o da criação. Havíamos deixado longe as preocupações do cotidiano, substituídas por missão excepcional que não admitia a idéia de malogro.

Essas condições favoreciam a integração, a confiança recíproca, o respeito e a amizade. No ponto em que nos encontrávamos nada, vindo de fora, nos perturbava. Tudo convidava ao trabalho construtivo, à identificação com a tarefa, afastando ou atenuando conflitos e problemas de ordem pessoal.

A natureza da missão atraía principalmente os idealistas. Os engenheiros que se apresentaram foram sempre jovens, que aliavam à capacidade técnica o anseio de participar de um empreendimento grandioso. Vinham cheios de esperança e confiança. Sua presença estimulante terá vigorado a experiência e a fé dos mais velhos.

O entusiasmo e a compreensão de todos tornaram possível, por outro lado, organizar-se o serviço dentro do sistema adotado, que evidentemente convinha ao nosso temperamento, mas também convinha à obra.

Já ouvi dizer que Brasília foi construída sob o regime de "ditadura". Oscar Niemeyer, de quem me fiz grande amigo, em referência cordial ao meu método de trabalho, não deixou de aludir ao que lhe parecia nossa "maneira rústica de senhor de engenho."

Seria efetivamente "ditadura" o que se implantou como regime de trabalho nas obras da nova capital? Talvez. Mas não uma ditadura pessoal, não o arbítrio de um homem. Era a ditadura de cada um no seu setor, o regime da confiança mútua e da responsabilidade individual e coletiva. Não tínhamos tempo a perder com formalismos. Tínhamos o que fazer – e o fizemos. Os resultados servem de julgamento ao método de trabalho. Tudo se passou como numa batalha. A equipe se organizou sob uma hierarquia natural de combate, numa disciplina de guerra. Daí a falsa impressão de autoritarismo do comando. Na realidade o que havia era esse sentimento disciplinar imposto pelas circunstâncias e possibilitado pela confiança, a fé e o entusiasmo de cada um de nós, mobilizados para realizar a mais importante empresa de construção urbanística do século XX.

Entre os soldados de Brasília, os que trabalhavam e só trabalhavam, engenheiros, auxiliares da administração, operários e os próprios empreiteiros, uma única preocupação existia: a de vencer a luta, a de dar conta do recado, a de cumprir a missão. Essa determinação, esse sentimento de responsabilidade, essa esperança e a certeza do êxito afastavam cogitações de qualquer outra natureza. Não havia ambições pessoais, não havia preocupação de dinheiro, não havia emulações subalternas. Cada um dos que viviam nos canteiros de obras, qualquer que fosse sua função ou encargo, como que tomara férias de suas próprias ambições.

Foi assim que surgiu o espírito de Brasília e foi com ele que se fez a nova e bela Capital. Em apenas três anos!

Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de Tamanini.



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