O DIA SEGUINTE

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O DIA SEGUINTE
Por Cecília Pinto Coelho
 
Brasília fez-se Brasília, ou ao menos a Brasília do poder, no dia seguinte ao cortar de fita. Começou com um feriadão – sexta-feira, 22; sábado, 23; e domingo, 24 -, porque ninguém é de ferro e os deputados e senadores tinham mais que fazer no Rio com promessa de sol. Nem bem começara a vida da nova capital e já brotara a “campanha do retorno”. Um grupo de dezenove senadores da oposição liderada pela UDN de Carlos Lacerda reabriu simbolicamente o Palácio Monroe, na Cidade Maravilhosa.

Em Brasília, só voltariam à labuta no fim de maio. Na segunda-feira, 25 de abril, primeira jornada útil, a Câmara dos Deputados não teve quórum para sessão e um dos ministros do Supremo Tribunal Federal foi à imprensa para explicar por que se recusara a permanecer no cerrado. A revista Time americana relatou a reprimenda de JK ao ministro da Saúde, Mário Pinotti, que retornou ao Rio. “Se o senhor não voltar, melhor renunciar.” Pinotti deu o pinote, e logo estava em Brasília.

Depois da festa – ao fim do Grande Prêmio Juscelino Kubitschek de automobilismo nas avenidas e do Campeonato Brasileiro de Barcos no Paranoá -, e como o cotidiano se anunciasse árido, houve debandada geral. Pelo menos 500 000 pessoas acompanharam as festas no 21 de abril de 1960. Muitas chegaram antes, gradativamente, hospedando-se nas cidades-satélite, em casas de família, ou mesmo em lugares distantes. O 22 de abril foi o caos, porque quem chegara de avião queria retornar do mesmo modo, e rápido, mas não havia espaço para todos. O Ministério da Aeronáutica teve de instalar uma força-tarefa. Convém lembrar que a ponte aérea Brasília-Rio só valeria a partir de 26 de abril.

Casa cor. Nem tudo eram andaimes. Deu-se prioridade à Praça dos Três Poderes e à Esplanada dos Ministérios, embora o anexo central do Congresso (o prédio em forma de “H”) e os edifícios dos ministérios não pudessem funcionar plenamente. Nos setores residenciais, apostou-se na Asa Sul – mas ali também, na inauguração, apenas 11,8% de um total de noventa superquadras planejadas estava terminado. Havia um jeitão de Casa Cor: desde 1959, quando fora inaugurado o primeiro edifício de seis andares, a Novacap mobiliou um dos apartamentos para mostrar o estilo de vida que Brasília reservava ao futuro, um futuro que a rigor só chegou em 1970, já durante o governo Médice.

Um passeio pelos jornais daqueles dias – os de oposição, claro – dá o tom do vazio criado depois da euforia. Correio da Manhã de 21 de abril: “Brasília é um pandemônio”. Diário Carioca do mesmo dia: “Brasília se inaugura sem depósito de lixo: o que havia virou favela”. Tribuna da Imprensa: “Senadores pedirão a volta do Congresso: Brasília é um caos”. As reportagens eram unânimes – e nesse caso mesmo entre os órgãos favoráveis a JK – em destacar a poeira que sobrara depois de a poeira baixar e o lixo que se acumulara. O Jornal do Brasil resumiu o ambiente: “Deputados sem ter onde morar começam hoje mesmo a voltar ao Rio”.

Quem ficou, para não perder o costume, ou para inaugurá-lo, tentou emplacar uma CPI. No ano da inauguração, nove comissões foram registradas no Diário do Congresso Nacional. Uma delas, publicada no periódico em 25 de agosto daquele ano, foi criada para investigar as condições da construção de Brasília, da organização e regulamentação de seus serviços públicos. A comissão, de autoria do deputado Seixas Dória, udenista de Sergipe, estava prevista para funcionar por noventa dias, mas não chegou a nenhuma conclusão. Fracassou também a tentativa de alcançar o governo de JK com a CPI do Vidro Plano, montada em 1959 para descobrir como o casamento dos imensos janelões do modernismo na arquitetura com os interesses dos empreiteiros encarecera a construção. Não avançou, e ficou por isso mesmo.

Com plenários vazios, e à falta de restaurantes para freqüentar, ia-se ao cinema. No Cine Brasília, desenhado por Oscar Niemeyer no Plano Piloto, com 1 200 lugares, os destaques da primeira semana foram Anáguas a Bordo, com Cary Grant e Tony Curtis; O Discípulo do Diabo, com Kirk Douglas e Burt Lancaster; a Canoa Furou, com Jerry Lewis. Na Cidade Livre – o atual Núcleo Bandeirante – roíam-se unhas com o faroeste A Lei do Mais Valente e a aventura Tempestade em Sangolândia. Difícil, quase impossível, era conseguir ingresso. “Brasília não era uma capital, nem mesmo uma cidade, à época de sua inauguração”, afirma Márcio de Oliveira, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, estudioso daqueles dias de corajoso pioneirismo.

Texto transcrito da Edição Especial (VEJA 2138), “Brasília: 50 anos” – novembro de 2009.

 


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