O CONCRETO JÁ RACHOU

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O CONCRETO JÁ RACHOU
Por Dino Black

Minha consciência mira os passos do tempo
A canção ao fundo traz de volta bons momentos
Álbum de fotografia lembranças antigas
Na arquitetura das ruas apertadas de Brasília

Gente espremida em bares e lanchonetes
Carros estacionados estrugindo a urbanidade do rap
Lojas de conveniência, postos de gasolina, trabalhadores no comércio
Pedintes nos sinais, nas esquinas escravas do sexo

Tipinhos tatuados de camisetas e bonés virados
Um pé atrás do outro pra cima e pra baixo
Contando suas moedas num balé cotidiano
Gritos na multidão letreiros objetos estranhos


foto de José Varella/CB

Não sou doutor nem tão pouco professor
Ironia do camelô na escadaria da Rodô
Um migrante que traz na mala costumes do sertão
Enquanto a garrafa de pinga passa de mão em mão

De pai pra filho de Lampião ao Rei do Baião
Planaltos e guetos nos traços de um avião
As placas velhas deram lugar a outras
Cidade-satélite ganhando caras e bocas

A escravidão só mudou de nome pra assalariado
Com um padeiro na mão rima um cantor de xaxado
A exclusão é o mais amargo fruto do sistema
Galinhas velhas ciscando em torno dos problemas

Milhares de andrajosos agonizam nas esquinas
A violência temperada e carnificina
Os monumentos são estranhos santuários de pombos
Já não podemos situar nos espaços urbanos

O devaneio de São Dom Bosco a construção da capital
Em homenagem aos candangos barracos de pau
Simbolizando no estandarte a flecha pra lembrar os nossos índios
Geir Campos compôs o nosso hino fundado por Juscelino
Circular retangular como seria Brasília

Entre vários arquitetos e urbanistas
Havia apenas uma cidade Planaltina de Goiás
Fantasmas vivos de nossos pesadelos reais
Lucio Costa fez os traços inspirados no sinal da cruz
Ao vasto horizonte Oscar Niemeyer visualizava uma luz

Avenidas no cruzamento dos dois eixos
Planejada para ser a sede do governo
Vendo raiar outrora alvorada em sua história
Quando o Distrito Federal se fez maior a sua glória
Inclinados rostos inclinados sobre o mapa

Em meio à terra virgem desbravada
Cercado de escolas igrejas e residências
Pelos tons berrantes de outdoors destrói as referências
Não dá pra acreditar que este aqui é o lugar

Estas algemas que me prendem podem se soltar
Conhecendo de perto o que assola o Brasil
Vizinhos do Planalto que pra uns nunca existiu
Patrimônio cultural entre outras mil

Enxurradas de multas enriquecendo as hienas no covil
Quem ficou cego de um olho com a venda de 600 lotes
O fotógrafo registra aos olhos do repórter
Motorista desatento e o trânsito perigoso
Ônibus quebrado e a passagem mais cara sai do nosso bolso

Cartão-postal da cidade terceira ponte JK
Novidade pra elites e nada pra cá
Daqui pra lá só asfalto daqui pra cá só buracos
As margens da Estrutural sem ensinamento básico

Promessas que valorizam a memória curta
O povo novamente vai às urnas
A falta de um enfermeiro uma receita mal lida
Pão com manteiga café pra começar a rotina

Nesta muralha que me cerca de imensos prédios
O contato direto com o mundo real faz controlar meu tédio
Preto pobre analisando o lado bom e ruim
Mas crescendo no rap Deus teve pena de mim

A cultura do prazer abraçada pela mídia
A loira sorridente que nem conheço tá na capa da revista
Nossa!!! Etc. e etc. sensações, imagens, sons e delírios
Ali ninguém pode parar ao encontrar um amigo

Números e nomes palavras à cara das pessoas
Pra espantar o sono chego em casa tiro a roupa
Tomo um banho penso em tudo apertando um tubo de creme
Aos 33 estou perdendo a paciência e alguns dentes

Sem pé nem cabeça mais um pai nosso em caso de aperto
Bem diferente de acender um incenso e falar mal do Edir Macedo
Filosofias políticas religiões lutas distintas
Receita pra começar o dia, vou usar a velha peita do Corinthians

Catando guimba de cigarro me escondendo atrás da fumaça
Pensamentos são alimentados um copo de cachaça
Depressão ansiedade me coloca à frente
Vendo meus sonhos indo embora de repente

Roteiro que daria o script de um filme
Descobrindo a dor no calcanhar de Aquiles
Desequilibrado na corda bamba, que nem conta a letra do samba
Minha escola minha rua meus companheiros de infância

Casas geminadas, isoladas simples ou luxuosa
O sol se põe deixando o céu de Brasília cor-de-rosa
Deixando de ser a capital do rock
Ao som da periferia nos versos do hip hop

Filho de nordestino de história escrita a calo
Independentemente do tempo que moro neste bairro
Aglomerei tantos sonhos que até fiquei sufocado
Ouvindo os discos raros de Roberto Carlos

Dino Black, um dos rappers mais importantes do DF, filho de candangos que vieram do Nordeste em busca de oportunidades. Nascido na Ceilândia e criado na Candangolândia, é espécie de poeta da periferia, conhecido como Preto Furioso das Rimas.

Em 2007, lançou o primeiro disco solo, “Mais fácil amar a rosa do que seus espinhos”, que foi elogiado pela crítica especializada.

Poema transcrito de “4+8: Doze Visões de Brasília”, Correio Braziliense, 21 de abril de 2008.

 

 


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