O começo

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Contra as gretas da paisagem
e sobre a tristeza dos galhos tortos do cerrado,
nasceu a cidade,
abrindo-se feito asas de anjo
           a partir do gesto primário na prancheta.
 
Sobre os campos desidratados,
os de fé e gestos largos
entre o suor e a liturgia da esperança
mergulharam na nova Capital
           rasgando o planalto calcinado
           na marcha sem fim de outra descoberta.
 
Os homens que aqui chegaram
largaram sementes na noite
apesar da voragem insensata
dos inimigos do amanhã.
 
   Hoje continua a brotar a cidade que nunca acaba de nascer…
 
Um homem a desejou,
retirando-a dos estatutos
sob a intimação da modernidade
arrancou-nos do litoral
porque a esperança conclamava a Oeste.
 
A cidade que celebramos
cumpre seu destino,
apesar de outro dado aos palácios,
com suas estátuas de sal,
suas rugas
        que já lhe denunciam cansaço
        e
        estatísticas de fel e sangue.
 
Mas o altiplano abriga
doidos vassalos da esperança
que adestram a geografia agônica
e enxertaram nos campos desidratados
o futuro sem tréguas.
 
Mas a cidade não se fez
                 nem a desfizeram
                 os primeiros ciúmes litorâneos
                 nem as hodiernas nos balcões
 
porque é fêmea a ternura que mantém
o contínuo artesanato da construção
além dos escaninhos oficiais,
da frialdade marmórea da burocracia.
 
Faz-se a cidade
em silenciosa escultura
 
          entre os novos suores e outros sacrifícios
          de outras gentes
                 com sua saudade de longes caminhos
                 desmembrada em ausência tristeza lembranças.
 
cidade cujo mar é o céu aberto sobre nós
e a noite um colar de perólas
reverberando pequenos sóis em nossas almas.
 
Poema de Ronaldo Cagiano, poeta mineiro, nasceu em Cataguases.
Extraído da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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