O cenário

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

O cenário
 
Desde fins do século XVII, princípios do século XVIII, viram-se os planaltos goianos cortados pelo homem civilizado à procura do ouro. Às pressas lançavam-se todos na direção do sudoeste, onde Bartolomeu Bueno, o filho, fundara, às margens do Rio Vermelho, a “Vila de Sant’Ana”, que logo tomaria seu nome, “Vila do Bueno”, para finalmente se tornar conhecida como “Vila Boa de Goiaz”, nome que ficou. Ali o ouro era apanhado fácil à flor da terra e nas águas rasas do rio.

Não havia parada. Rumo marcado, fazia-se urgente chegar lá. A meio caminho, correndo tranqüilo, um outro ribeirão guardava seu ouro escondido nas margens. Os primeiros conquistadores não se deram ao trabalho de pesquisar. Parar não podiam, as minas de “Vila Boa” estavam longe ainda. Anhanguera, pai, a seu tempo também passara, deixando as marcas do seu trajeto em roteiros inteligentes e esclarecidos. Suas artimanhas de sertanejo sabido, incendiador de rios, corriam entre os silvícolas que povoavam o cerrado e as matas do planalto. Mas, em 1746, o bandeirante Antonio de Bueno Azevedo, saindo de Paracatu e atravessando o São Marcos, descobriu as minas de Santa Luzia e fundou florescente povoado às margens do ribeirão que corria tranqüilo a meio caminho, batizado, então, também de Rio Vermelho, como o da “Vila Boa”, pois era costume chamar assim os rios de areia aurífera.
 
Santa Luzia, a Luziânia de hoje, teve seu tempo de fastígio, como todas as localidades nascidas à sombra do ouro. Para lavar o cascalho das catas, rico de pepitas e areia dourada, trouxeram de longe, num rego de sete léguas de extensão, que acompanhava a falda dos morros e era todo calçado de pedra, as águas do Saia Velha. Durante dois séculos foi essa a mais importante obra de engenharia do sertão. O Vermelho corria em nível mais baixo, não houve como aproveitar suas águas; com o tempo, esgotadas as areias de ouro de seu leito, foi perdendo até o nome e acabou, dentro da Vila, com o “Canal Grande”.
 
Quando o ouro escasseou, surgiram as grandes fazendas de criação. Aquelas paragens passaram a viver na quietude uniforme do planalto. Os buritis alinhavam-se tranqüilos nas veredas silenciosas. “Canelas de ema” floriam na estação de abril. O murici cheiroso, as cabacinhas perfumadas, pontilhavam o cerrado agreste. O gado vagava por aquele mundo, mudando de quando em quando de pastagem no campo aberto.
 
Esquecidos além do meridiano de Tordesilhas, os bandeirantes aventureiros não puderam tolerar a vida monótona e primitiva das vastas fazendas. Sentiam dentro de si, tal como seus ancestrais, aquela força atávica que faz sonhar o homem com outras terras, outras gentes e partir em busca da conquista. E assim se foram.
 
O silencio da planura se fez maior. A vida mais pacata e doce. Ali não havia chegado ainda o ronco das máquinas pesadas da civilização contemporânea. Que vinham a caminho. E que ganhariam aquelas paragens quebrando para sempre sua quietude, o seu silêncio. Às centenas, aos milhares, chegariam os técnicos, os operários, traçando no solo o sinal da nova posse. Um sonho de séculos estava por materializar-se na paisagem bucólica e perdida. Novos anhangueras, novos bandeirantes ergueriam ali uma bela e nobre cidade. Dentro em pouco não mais cantariam as seriemas ao alvorecer e ao por do sol. Velozes desapareceriam os veados campeiros em busca de novos abrigos. As “canelas de ema” não se cobririam de flores por toda aquela vasta extensão…”

Reproduzido do livro “Brasília: Memória da Construção”, de L. Fernando Tamanini.

 


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