O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO
Por Augusto Nunes
 
A cidade que nasceu sem habitantes e estava pronta quando foi fundada nunca viu a multidão por ter espaços demais. Brasília viu muita gente duas vezes: em agosto de 1976, na partida de Juscelino Kubitschek, e em junho de 1980, na chegada do papa João Paulo II, quando dezenas de milhares de brasileiros se juntaram num mesmo ponto do Plano Piloto. Mas muita gente só vira multidão quando se acotovela em lugares com limites definidos, faz o chão desaparecer e ameaça derramar-se pelas bordas das fotografias. Isso Brasília não sabe o que é. Nem saberá, por falta de cenário com fundo. Cenários infinitos engolem até multidões chinesas.

Se o corpo de JK fosse velado na Cinelândia, no Rio, por exemplo, uma multidão teria protagonizado o que hoje se chamaria de O Adeus dos Trezentos Mil. Recortado contras as imensidões do cerrado, o cortejo em Brasília não pareceu mais impressionante que qualquer comício estrelado pelo presidente morto numa cidade de tamanho médio. Se os que recepcionaram o papa na Praça dos Três Poderes fossem dar-lhe boas-vindas no Rio, a multidão transbordaria da Sapucaí e não caberia no Maracanã. Mas não existe nada em Brasília parecido com o templo dos deuses da bola ou com a passarela do samba.

A capital do  País do Futebol não tem campo nem time de futebol. (Os estádios onde jogam o Brasiliense e o Gama ficam fora do Plano Piloto.) E a capital do País do Carnaval não tem carnaval de rua. (As aparições anuais de alguns blocos apenas realçam a inexistência de escolas de samba.) O esporte preferido e a festa mais popular dão sinais de vida nas cidades-satélites, que não tem parentesco com Brasília. Nasceram juntas, mas não são gêmeas em nada. São extremos que, por se completarem, até agora tem convivido sem conflitos.

Esses aglomerados urbanos que Lucio Costa não planejou e Oscar Niemeyer não decorou com monumentos tão belos quanto inabitáveis contrastam pedagogicamente com o espanto futurista da metrópole que rodeiam. A contemplação do conjunto informa que Brasília não tem povo – como se referem os políticos à massa informe e anônima de viventes com pouquíssimas chances de algum dia perguntarem a alguém se sabe com quem está falando. Esses são vistos no Plano Piloto durante o dia. No começo da noite, terminada a jornada de trabalho, voltam para a babel periférica e dormem em casa. Vivem em ruas comuns, com nomes comuns e carências comuns. Nada a ver com a vizinha também cinquentona mas proibida de envelhecer. Brasília terá sempre a cara que tinha ao nascer. Chegou ao berço com tudo o que não há nos arredores. Só faltava gente morando lá.

Em 1970, a escritora Clarice Lispector impressionou-se com a supremacia da cidade sobre seus habitantes. “Brasília é tão artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado”, escreveu numa crônica. Como acontece a onze em cada dez visitantes na primeira viagem, Clarice estranhou a troca de ruas e praças por superquadras, tesourinhas, eixinhos e eixos. Ficou insone com o silencio ensurdecedor, descobriu que a infinitude da paisagem torna a solidão mais aflitiva e, sobretudo, desconcertou-se por não encontrar alguém que reproduzisse a cara do lugar.

“Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo”, lembrou. “Nós todos somos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar; e depois o mundo deformado às nossas cidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília”. Inaugurada dez anos antes, a cidade descrita por Clarice era a reprodução miniaturizada do mosaico brasileiro, formado por migrantes que tinham acabado de chegar.

Dez anos depois da fundação, os cearenses continuavam cearenses, os gaúchos continuavam gaúchos, todas as peças escancaravam na estampa e no sotaque o local de fabricação. A identidade não sofrera mudanças por falta de tempo e, sobretudo, de referencia:  como o brasiliense nasceu depois da cidade, os que chegaram não dispunham de um modelo a copiar. Quando a crônica foi publicada, a primeira geração de nativos nem atingira os 10 anos de idade. O homem de Brasília não existia. Pode ainda estar em gestação.

Talvez seja um quarentão de classe média, diplomou-se pela UnB, é funcionário público, combina ternos cinza ou azul-escuro com gravatas de desenho sóbrio, mora em apartamento, conhece meio mundo ma convive estreitamente com poucos.  Ao contrário dos deputados, dos senadores, dos ministros e do presidente da República, não viaja para longe da capital nos fins de semana. Freqüenta com assiduidade o clube de que é sócio, circula todo o tempo de carro e caminha bastante, mas nunca anda à toa. Sair por aí exige as ruas e as esquinas que não há. Porque não existem cruzamentos, os brasilienses se cruzam nos restaurantes e nos bares. Que nunca ficam na esquina. Que nunca fez falta ao Homo brasiliensis, juram todos os nativos do lugar.

Tampouco lhes fazem falta ruas e praças semelhantes às do resto do país. Basta  Praça dos Três Poderes e sua extraordinária polivalência, que lhe permite hospedar manifestantes que cobram por hora ou circos cuja única atração é a chance de zombar do Congresso. Não há casas com quintal antigo e numeração convencional nem outro sinal de parentesco arquitetônico com as demais cidades brasileiras. Os nascidos e criados em Brasília não vêem nada de errado nas singularidades e inovações com as quais convivem desde o berço. Da mesma forma que um inglês recém-chegado ao continente considera pura esquisitice trafegar pela mão direita, aos olhos dos brasilienses o que parece espantoso é a existência de ruas batizadas como se fossem pessoas, que mudam de identidade sem mudar de rumo. Não compreendem por que tantos brasileiros passam parte da vida imobilizados em congestionamentos de trânsito, embora isso também já ocorra na capital federal.

Forasteiros se perdem regularmente na selva de prédios indistintos, consoantes misteriosas e palavras que, em brasiliês, têm outro sentido. “Vou até a pequena zona de comércio de uma superquadra para comprar cigarro e na volta me perco numa floresta de edifícios absolutamente iguais uns aos outros”, escreveu o cronista Fernando Sabino, mineiro e ipanemense honorário. “Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento de meu amigo onde estou hospedado. SQS – 307 – Bloco F – apto 502, leio na minha caderneta.”

“Vó! Olha lá o Jornal Nacional!” No livro ainda inédito “Brasília e Eu – Uma Reportagem”, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, comprova a reciprocidade da estranheza com exemplos ligeiros e divertidos. Num deles, a neta de 3 anos que levou para conhecer Brasília descobriu que já tinha visto em algum lugar a paisagem formada pela Esplanada dos Ministérios, com o prédio do Congresso ao fundo: “Vó! Olha lá o Jornal Nacional!”, exclamou a carioquinha. Que não reconheceu no restante da incursão nada parecido com o que já viu. Em outro episódio, uma sobrinha de 8 anos hospedada no apartamento de cobertura em frente à Praia de Ipanema olhou do terraço para a Avenida Delfim Moreira e quis saber da tia: “Como é o nome desse eixo?”.

Outra menina ficou intrigada ao descobrir que as ruas do Rio têm nome e sobrenome. “Como é que a gente pode saber onde é que fica?”, perguntou a Maria Elisa. “Em Brasília a gente sabe.” A filha de Lucio Costa conta que as marcas de nascença que assustaram Fernando Sabino foram concebidas “para impedir que a nova capital, mesmo em seus primórdios, tivesse qualquer conotação de cidade do interior”. A imaginação do pai urbanista acabou tornando a criatura muito diferente também de qualquer capital. “As superquadras, com seus blocos de seis andares, os pilotis abertos, a entrada única para os carros, cercadas por uma faixa arborizada em todo o perímetro, introduziram um novo modo de convívio urbano”, diz Maria Elisa na abertura do capitulo “206-Sul”. Fernando Sabino chamaria um tradutor ao ler esse título. Qualquer brasiliense adivinha o que lerá.

Testemunha privilegiada da gestação apaixonante, a carioca Maria Elisa pertence a uma espécie rara: o anfíbio que se sente à vontade e feliz em ambas as cidades. A tribo parece à beira da extinção se confrontada com a composta de nativos que defendem Brasília apaixonadamente ou com a formada por forasteiros que perdem o humor e o eixo quando topam com o Eixo Monumental. Num Planalto Central ainda deserto e desprovido de âncoras naturais como o Corcovado ou o Pão de Açúcar, conta Maria Elisa, a arquiteta teve de inventar referências. Há a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, são dezenas os cartões-postais sinalizadores. Mas há sobretudo o Eixo Monumental, que está para Brasília como Viaduto do Chá está para São Paulo.

Seria temerário evocar o paralelo perto de inimigos juramentados da capital – o presidente Jânio Quadros, por exemplo. “Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito”, exagerou na resposta ao neto Jânio John, também interessado em descobrir as razões reais da deserção. O instável presidente repetia que “Brasília não tem gente”. Sempre teve. Foi por causa de gente inimiga, aliás, que Jânio decidiu sair para voltar com poderes superlativos. O que não tem é multidão – e sem multidão à vista não havia Jânio. “Se eu ficar cinco minutos batendo lata no Viaduto do Chá, junto mais de 5 000 pessoas”, gabava-se o grande palanqueiro. Nunca  se arriscou a estrelar um comício em Brasília.

Jânio passou sete meses queixando-se da ausência de platéias que os políticos federais preferem ver pelas costas. A capital dos escândalos nunca viu um vigoroso protesto dos escandalizados. De terça a sexta-feira, tanto os delinqüentes da semana como os veteranos pecadores circulam sem perigo pelos mesmos restaurantes. Os parlamentares sabem mais do que dizem, os jornalistas sabem mais do que publicam, os brasilienses sabem mais do que comentam. Nelson Rodrigues achava que, se todos conhecessem a vida sexual de todos, ninguém cumprimentaria ninguém. Os que freqüentam a Praça dos Três  Poderes conhecem o que se passa nas alcovas alheias e o que se passa além delas. Todos  se cumprimentam. Os nativos rechaçam com veemência o codinome Ilha da Fantasia. O complemento talvez seja incorreto: os pais da pátria que andam fazendo coisas que parecem ficção sabem o que fazem, e sabem também que os homens de bem sabem disso. Mas a soma de coisas que só existem em Brasília confirma que o Plano Piloto é uma ilha, sim. Cercada de outro Brasil por todos os lados.

Texto transcrito da revista Veja, edição Especial “Brasília 50 anos”.

 


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