O BOM MENINO BEM COMPORTADO NA CORTE DOS TECNOCRATAS

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O BOM MENINO BEM COMPORTADO
NA CORTE DOS TECNOCRATAS

 
às quinze horas
não mais que às três em ponto desta tarde
estarei fechado entre quatro paredes
ouvirei engenheirês e economês
explicarão que é comigo o português
beberei café
aspirarei a fumaça do cigarro alheio
encherei os pulmões de ar viciado
estragarei o cérebro com palavrório
sentirei sono tédio vontade de ir embora
mas ganharei meu pão muito calado
não prejudicarei ninguém
não serei indelicado
tudo farei pelos melhores resultados
minha família pode ficar em paz
porque me mostrarei um bom menino
 
enquanto isso
às três em ponto desta tarde
há mulheres enroscadas nos amantes
há secreções em mistura
vaginas casam-se com pênis
há jatos de esperma contra diafragmas
há sêmen contido em camisas de vênus
há corpos que se contraem e relaxam
há um sujeito solitário tomando chope escuro e comendo salada
                                                                               de batata no bar luís
às três em ponto da tarde
não envergonharei minha família
 
às três em ponto da tarde
haverá uma pedra incorruptível no meu peito
 
Reynaldo Valinho Alvarez, poeta natural do Rio de Janeiro.
Poema transcrito do livro “O Sol Nas Entranhas”, Editora Três.

 


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