Nova espécie urbana

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts 3 Comentários

Por Conceição Freitas

Talvez nenhuma outra cidade no mundo, salvo as que se transformaram em ruínas, precise de uma iniciação para ser compreendida e só então aceita. Brasília pede uma cartilha que pegue o visitante pela mão e o ajude a decifrar sua racionalidade tão evidente, porém tão intrincada e perturbadora.

É preciso esquecer toda a experiência anterior de cidade, ou pelo menos renunciar a comparações, para só assim conseguir se aproximar desse estranho jeito de formatar um lugar urbano pra se viver. Em Brasília, até a relação corpórea com o espaço físico é singular. Aqui, um passo não tem as mesmas dimensões de um passo no Rio, em São Paulo ou em Goiânia ou em qualquer outra capital brasileira – ou estrangeira, das que tenho notícias.

O espaço brasiliense tem um vácuo interestelar. Em Brasília, não existe o ‘logo ali’. A topografia calma, serena e majestosa, como escreveu o botânico Auguste Glaziou, estica a molécula das distâncias e nos transforma em formiguinhas num planeta de dimensões astronômicas. De tão longe que tudo é, ficamos perigosamente próximos da solidão.

Em Brasília, somos todos solitários. Há entre mim e você, entre aquele e aquele outro, uma distância oceânica. E não é apenas a imposição topográfica de um extenso vale circundado de chapadas – imensidão envolta em imensidão. Os brasilienses ainda somos estrangeiros, porque mesmo os aqui nascidos são filhos de outras regiões e de outras culturas.

O que nos une é o que nos separa – a experiência de viver numa cidade que já nasceu em extinção, porque não haverá nenhuma outra para lhe fazer par. Será única desde o principio até o fim dos tempos. Quem desenhou esse lugar não quis repetir a fórmula milenar de aglomerados urbanos feito de proximidades e de misturas. Quem desenhou Brasília quis inventar um novo homem e novo corpo para o homem.

A cidade não nos sufoca, não nos cerca, não nos dá encosto. Ela nos deixa soltos no ar, com a ilusão de que estamos pousados na Terra. Que nada. Demasiada imensidão despojada de obstáculos faz do brasiliense um ser humano alado. Mesmo nos congestionamentos, sufocados pelas mazelas das metrópoles (nisso somos iguais), nos é oferecida uma perspectiva única no modo de vida urbano: a totalidade do céu, as chapadas faiscantes de luzes, as rodovias como pedras preciosas de uma joia infinda.
O brasiliense tem um corpo fechado em si mesmo. Mais do que em qualquer outro lugar habitável, em Brasília o ser humano é uma ilha. É um insulamento arbitrário, que nos constitui, como se fôssemos as primeiras gerações de uma nova espécie urbana.

Transcrito do Correio Braziliense, 5/5/2013 – “Crônica da Cidade”

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Comentários (3)

  • Jussara Magalhães

    |

    Poeticamente lindo!

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  • Chico Damasio

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    Parabéns. Acervo poético ilumina uma página histórica do Brasil.

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    • JOANA ELEUTHÉRIO

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      Lindo. compartilhei no grupo do Face “DE OLHOS NAS PASSAGENS SUBTERRÂNEAS…”

      Abçs.

      Responder

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