Não há céticos em Brasília

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Não há céticos em Brasília
Por Moacyr Andrade

Fomos à Brasília. Quem vai a Brasília é logo interrogado, porque Brasília, que é para muitos uma afirmação, é também para outros uma dúvida. Há os Tomes, que querem ver, porque só acreditam vendo, pondo o dedo no lado…

Tivemos ensejo de ir a Brasília de pisar o seu chão. Vascolejamos-nos, durante várias horas, em ônibus e jipes, percorrendo sua área imensa, aspirando o pó vermelho das centenas de quilômetros de ruas e avenidas que estão sendo abertas pelas máquinas, pó que o asfalto deverá amanhã abafar. Por toda a parte o mato é abatido e as máquinas abrem estradas, impressionante espetáculo de criação e de audácia. Muito suor, muita poeira e muita decisão. Não há céticos em Brasília. Todos estão animados e confiantes, porque estão trabalhando para a nova capital e, cada dia que termina, verificam quanto caminharam, vendo o que fizeram.

Os céticos transformam-se em crentes diante do que vêem. Daqueles que vão procurar trabalho e que sempre o encontram, nenhum pensa em voltar. Todos tem um só pensamento: fixar-se em Brasília. Querem ser a população nucleadora que ali ficará, para mais tarde contar a história às gerações. Contar como começou aquela obra de arrojo, como o homem derrubou a mataria. Contar como as antas, tão procuradas pelos caçadores ousados, tiveram de fugir espavoridas, ao ruído dos tratores, ao buzinar dos caminhões e aos roncos da máquinas poderosas que não estavam ali para devorá-las, mas para abrir caminhos à Civilização e estradas para o homem…

Por que o Sr. Juscelino Kubitschek entendeu de mudar a Capital? Capricho? Para fazer “cartaz”? Por que gosta de movimento? Todas essas coisas correm por aí…

O Presidente, entretanto, explicou, falando aos médicos de Minas. Quando começou a sua campanha política – confessa francamente – não incluíra no programa de candidato a promessa de mudar a Capital da República. Ao realizar o seu primeiro comício, o que se deu numa cidade de Goiás, tendo lançado o sistema de por-se à disposição da multidão, para que ela lhe expusesse as aspirações locais e o interrogasse livremente, foi-lhe perguntado se ele, sendo eleito, mudaria a Capital. Sua resposta foi essa: “Sendo o assunto tratado na Constituição, terei de estudar o meio de cumprir o que a Constituição determina”. Daí por diante, em toda parte – em Goiás, Mato Grosso, em São Paulo, a pergunta lhe foi repetida.

Era mesmo aquela que em todos os comícios pelo interior do Brasil lhe faziam com maior demonstração de interesse pela resposta. E os oradores que falavam nos comícios faziam da mudança da Capital o “leit votiv” dos discursos, que as populações aplaudiam. Observou que o desejo era envolvente e dominador e que o interior do Brasil via o problema como fundamental para a vida do país. Já então o incluiu em suas cogitações, podendo, pois, declarar o problema de mudança da Capital  entrou no seu programa levado pelo próprio povo brasileiro. Goiás, São Paulo e Mato Grosso foram, especialmente, os Estados que mais alertaram o candidato a respeito dele, levando-lhe a convicção de que era preciso cumprir o que a Constituição prescreve.

Aliás – fez o Presidente empenho de acentuar – tal problema nunca morreu. Sempre esteve vivo. A mudança da Capital está inscrita em todas as Constituições republicanas do país, desde 1891. Só não figurou na do Estado Novo. E na de 1946, onde os dispositivos constitucionais, durante as discussões, sempre agitaram correntes de opinião, aquele referente à obrigação de mudar a Capital da República foi votado unanimemente.

É importantíssimo fixar essa unanimidade. Porque udenistas, pessedistas, perristas, trabalhistas, libertadores – todos os partidos votaram sem discrepância, na Constituição, pela mudança da Capital.

Não há, portanto, artigo constitucional mais prestigiado do que esse que manda fazer a mudança.

Artigo reproduzido da revista “Brasília”, da Novacap, edição de abril de 1958, número 16.

 


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