NA VASTA MATA OS CASSACOS

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NA VASTA MATA OS CASSACOS
 
 
                                                (Da obra do pai nos fala
                                                          Léa, filha de Bernardo.
                                                 À quisa de depoimento)

 
 
 
 
Na vasta mata os cassacos
                   com seu facões e machados.
Abrem pistas de aterragem
                   – pouso pras asas da FAB;
aviões de abastecimento.
 
E aqui lembramos que à turma
                   votada ao desmatamento
chamam de grupo suicida:
                   a que mais arrisca a vida.
Basta lembrar cada árvore:
                   quarenta, sessenta metros
de altura na selva densa.
 
O que virá pela frente?
 
Companheiros de trabalho
                    de meu pai, antigos, vários,
aqui vieram procurá-lo;
                    outros foram convidados
a trabalhar ombro a ombro.
                    São centenas de quilômetros
de mata bruta, chamada
                    de "inferno verde". Atualmente
dois mil duzentos quilômetros
                    vão se construindo, de estrada,
essa que une três Estados:
                    Goiás, Maranhão, Pará.
Mais ou menos se desmata
                    por dia meio quilômetro.
A lida começa às 7
                    indo até às 6 da tarde.
 
Que dizer de nossos homens?
                    Trabalhadores. Audazes.
 
Na mata eles se alimentam
                     de feijão, farinha e carne,
da verde. Bem farta, a caça:
                     em antas, e pacas, veados
tatus, cutias, etc.
 
E há frutas de muita espécie,
                     como o açaí, e a juçara
– que lembra jabuticaba,
                     que se esquenta e que se rala.
 
À noite muitos preferem
                     esperar que venha a caça.
Ficam na beira do rio
                     horas a fio na espera.
E quando uma flor cai n’água
                     e vem comê-la um veadinho
então caçam-no. Por perto
                     escutam onças rosnando.
Quanto mais a estrada avança
                     mais surgem novos povoados
e as cidades existentes
                     progridem mais. Quanto aos víveres
são vindos de Imperatriz,
                     cidade esta bem antiga,
e que tanto progrediu
                     mercê desta rodovia.
 
Bastantes vezes meu pai
                     transportava mantimentos
– medicamentos também –
                     pra que seus trabalhadores
não ficassem sem cuidados.
 
Sim, meu pai se preocupava.
                     E os tratava como amigos,
sempre de igual para igual.
 
Comia junto a seus homens,
                     e dava-lhes apelidos,
estímulo no serviço.
 
Em plena mata dormia:
                     a casa era uma casinha,
e de tocos de madeira.
 
Mas tão feliz se sentia!
 
Poema extraído de um trecho em prosa de Léa de Araújo Pina

 


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