Morte na Mata

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Entranhas da mata amazônica, Pará, a trinta quilômetros da fronteira com o Maranhão, por volta de uma hora da tarde de 15 de janeiro de 1959. Ronco de tratores de esteira, estrondo de raízes grossas e profundas brutalmente arrancadas, gritos de trabalhadores, estalos de madeira rachando e quebrando. Força bruta. Cheiro de mato e de morte.
O ritmo de trabalho é alucinante. Onze construtoras e mais de três mil homens. Faltam apenas quinze dias para o encontro das frentes de desbravamento norte e sul, fechando a sonhada ligação da pista de Brasília a Belém, braço superior do cruzeiro rodoviário nacional. Kubitschek vai chegar em 1º. de fevereiro de 1959. Vem  com a família, ministros e outras autoridades. Vai ter missa campal e também grande churrasco em plena selva. Máquinas já trabalham na construção de tosca pista de pouso. Aceleração máxima: o ronco dos tratores é agora ensurdecedor. A árvore gigante finalmente cambaleia, enverga e tomba. Enorme galho das grimpas se desprende e despenca exatamente sobre a barraca em que está o legendário engenheiro Bernardo Sayão, de 57 anos, comandante da frente sul de desbravamento. Destino? Acaso? No dia anterior, ele tinha mandado mudar a barraca da margem do córrego para aquele local, mais próximo das turmas de serviço.
Crânio quebrado, fratura exposta na perna esquerda, braço esquerdo esmagado, tronco machucado pelos galhos e ramos. Esvai-se em sangue, arrasado pela fatalidade e pelo sofrimento. Mas não se entrega nem se descontrola. Não há ali nenhum socorro médico. Apenas analgésicos, impotentes contra a dor imensa. Susto, comoção, medo e pesada tristeza dos trabalhadores. Algumas horas depois, cerca de três da tarde, o piloto de um avião Cessna que atirava víveres na clareira próxima ao acampamento percebe cruz improvisada com dois enormes troncos de madeira estendidos no chão. está coberta com camisas dos trabalhadores para chamar-lhe a atenção. Conclui que algo estranho está acontecendo. Mas não tem onde pousar. Reduz a altura e nota os acenos desesperados de dezenas de homens. Vê o corpulento Sayão estirado sobre uma rede, inerte, a roupa encharcada de sangue. Compreende e parte em busco de socorro. Espera, tensão, medo, ansiedade. Angústia, muita angústia. Horas depois chega um helicóptero. Embarcam Sayão cuidadosamente. Vai deitado, a cabeça sobre o colo do companheiro Kelé, que viaja sentado no chão. em coma, não resiste. Morre a bordo, por volta de sete da noite, sobre o leito da tão sonhada estrada, pouco antes do pouso em Açailândia, no
oeste do Maranhão, povoado mais próximo. Hemorragia sem fim. Aí é velado toda a noite. No dia seguinte, 16 de janeiro de 1959, conseguem comunicação por rádio com Belém e Brasília. O corpo é levado de avião para Belém e depois para Brasília, onde vai ser sepultado. A notícia se propaga e comove o país.
O presidente Kubitschek, que estava no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, deixa tudo e voa para Brasília.Às oito da noite do dia 16 de janeiro de 1959, sexta-feira, o caixão chega ao aeroporto e é recebido por autoridades e multidão de trabalhadores. O presidente acompanha todos os passos, emociona-se, chora, reza. O velório é na capela Dom Bosco. Depois celebra-se missa de corpo presente no Santuário de Nossa Senhora de Fátima. Todos querem ver o ídolo, despedir-se. Mas a família não permite a abertura do caixão. Muitos candangos concluem que o corpo não está ali. Tem é um tronco dentro ou então pedras. Estão escondendo a verdade para não assustar as pessoas: Sayão foi devorado por onça. Ou então capturado por índios. Alguns dão até o motivo: por seu tamanho, aparência e força, foi levado para ser reprodutor, cruzar com as índias. Outros falam em vingança da floresta. Das árvores. O mito nasce ali mesmo e cresce depressa. Da imortal Raquel de Queiroz:
 
"Fazia poucos dias que morrera Bernardo Sayão. O menino exigia histórias, a imaginação estava fraca, e então contamos para ele a vida do belo gigante que tinha o gosto de abrir estradas e criar cidades, que atravessara a nado um rio enorme, e saía no seu trator por dentro da mata, sem medo de onça, sem medo de índio, sem medo de nada, derrubando árvores, subindo serras."

Para Kubitschek, a amizade com Sayão tinha significado superior. Superava em muito as relações afetivas comuns, rotineiras. Ele via uma transcendência, um sentido mágico nesse relacionamento, assim sintetizado pelo jornalista e escritor Antonio Callado:

"Olhe-se como se olhar o plano de Brasília, é inegável que o encontro de Juscelino Kubitschek e Bernardo Sayão foi histórico para este país."

Callado e os também escritores Hernane Tavares de Sá e John Dos Passos, este norte-americano, tinham contribuído, anos antes, para projetar Sayão, divulgando seus feitos na implantação da Colônia
Agrícola Nacional, no Vale do São Patrício – hoje Ceres, Goiás -, na imprensa nacional e no exterior. Passos visitou as obras de Brasília em julho de 1958.
Eis como Kubitschek descreve a entrada de Sayão na peleja da estrada:

"Sayão estava pronto. Levou o trailer, em que habitualmente morava, para as imediações de Porangatu e o abrigou sob um majestoso pé de pequi. Armou o fogão ao ar livre. Semeou uns caixotes em torno, à guisa de sala de visitas. Ele mesmo, porém, ali pouco parava. Quem se aproximasse da mata, que começava perto, logo o via: alto; forte como uma árvore; rosto de linhas harmoniosas, como se fosse esculpido; olhos perscrutadores; trajando calça de brim cáqui e camisa branca, aberta ao peito. Estava ali na sua indumentária "de guerra", preparando-se para a grande arrancada."

Sábado, 17 de janeiro de 1959. Brasília pára pela primeira vez e acompanha o enterro de Sayão. É o primeiro do cemitério da cidade, mais tarde batizado Campo da Esperança. Ele mesmo o demarcara havia menos de dois anos. Cerrado virgem. Máquinas trabalharam a noite toda abrindo estrada de acesso. À beira do túmulo, Juscelino faz discurso comovente. Sabe que se vai muito mais que um grande amigo. "É o Brasil que está de luto. Perdeu um líder carismático, símbolo de força e aventura, coragem, trabalho e determinação. Um ídolo da peonada, homem-coragem, herói do desbravamento, semeador de obras, cidades e sonhos."
Há um segundo enterro no mesmo dia. O do motorista Benedito Segundo, velho companheiro de andanças e aventuras de Sayão, morto por ataque cardíaco ao receber a notícia. É colocado ao lado do chefe.
Outra fatalidade: na semana seguinte, morre num choque de veículos, também em plena selva, o engenheiro Rui de Almeida, líder da frente de desbravamento vinda de Belém.
Em 31 de janeiro de 1959, dezesseis dias após a morte de Sayão, as frentes norte e sul finalmente se encontram, arrematando a trajetória de 2.240 quilômetros e uma epopéia verde-amarela pontilhada de perigos e dificuldades. Está pronta a tão esperada ligação. O nome oficial da estrada, inicialmente parte da Transbrasiliana – ligação de Santana do Livramento (RS) a Belém do Pará -, depois BR-14, foi alterado para Rodovia Bernardo Sayão. No exato local do acidente, os mateiros fincaram enorme e tosca cruz feita com a madeira do galho que o matou. Alguns anos depois, ela foi retirada. Ninguém sabe quem nem por quê.
Curioso: carioca da gema, nascido na Tijuca, em 18 de junho de 1901, remador do Botafogo de Futebol e Regatas, assíduo e admirado petequeiro no Posto 2 da praia de Copacabana, o engenheiro-agronônomo Bernardo Sayão Araújo Carvalho, graduado em Belo Horizonte, Minas, morreu goiano no imaginário popular. Talvez por ter aí comandado arrojado projeto de colonização do governo Vargas (origem da atual Ceres, Goiás), comprado fazenda e, em 1954, sido eleito vice-governador. Governou o estado de janeiro a março de 1955. Talvez já fosse mesmo também goiano. Talvez ainda seja. Agrônomo, plantou Ceres, ajudou a plantar Brasília, a estrada Brasília-Goiânia, a Belém-Brasília, plantou fé no Brasil. Ele não era apenas dinâmico e arrojado desbravador e tocador de obras. Sabia pensar grande e tinha preocupações políticas e sociais. Sonhava com reforma agrária e colonização. Com um mar de assentamentos agrícolas ao longo da Belém-Brasília, que o futuro presidente Jânio Quadros chamava de "caminho das onças". Para Sayão, a estrada era parte essencial da coluna vertebral do sistema viário do país. Tolerava os burocratas, porque inevitáveis. Mas tinha horror à burocracia, principalmente quando lenta ou excessiva. Não aceitava ter a vida presa a gabinetes, tediosas rotinas, horários rígidos, segurança de emprego, pequenas mordomias, qüinqüênios, averbações, licenças-prêmio, abonos, letras, previdência. Formalidades, cipoais legais, carreirismo, papelada. Às vezes desmanchava o maço de cigarros e no verso redigia requisição de materiais, datava e assinava. Se um operador de qualquer equipamento não entendia as ordens, vacilava ou demonstrava medo, subia na máquina, assumia o comando, mostrava o que e como queria e, muitas vezes, completava a tarefa. Uma coragem bruta, quase inconseqüente. Coisas como derrubar árvore grande em local perigoso, de grande risco. Perto de abismos e pântanos, em ribanceiras muito inclinadas, em beiradas de barranco de rio grande. Adorava desafios. Brincava com a sorte, confiava em si mesmo. Sabia que sabia operar sem erro. Uma força da natureza. Sim, grande Rosa, viver é perigoso. Muito!
Como Sayão via Juscelino? Lia Sayão de Sá, filha que levou adolescente para Brasília, em novembro de 1956, conta:
 
"Pelo que a gente tem conhecimento e sabe, via como um homem empreendedor, trabalhador. E também como quem conseguiu tornar possível o sonho do meu pai, que era fazer a Belém-Brasília. Foi o único que deu mesmo força, respaldo e suficiente verba para construir a estrada, concretizar o sonho dele. Meu pai enfrentou muitos problemas. Ninguém queria fazer a estrada, porque diziam que era o caminho da onças. Foi muito difícil conseguir verbas e tudo o mais. De vez em quando ele vinha a Brasília de teço-teco, porque a gente continuou morando aqui. No final, como tinha prometido fazer logo a ligação da estrada, ele estava trabalhando demais lá. Então ficava mais tempo lá. Era uma confusão, ele fazia tudo. Não sei como ele achava tempo para fazer tanta coisa! [risos]"
 
Transcrito do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.


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