Moravia em Brasília

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Moravia em Brasília
Por Ana Miranda

“Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder”

Moravia esteve em Brasília. Uma espécie de Rubem Fonseca italiano, escreveu romances amargos, pessimistas, sobre dissolução moral, sexo e violência, sempre numa linguagem crua e direta. Moravia era também um escritor-viajante. Já tinha publicado seu primeiro romance, “Os indiferentes,” quando foi contratado por um colega escritor para escrever no jornal italiano “La Stampa”. Isso foi em 1930. Moravia era um rapaz de 23 anos e ainda se chamava Alberto Pincherle. Perseguido pelo regime fascista, Pincherle mudou seu nome para Moravia e foi se refugiar em Londres. Aí, escreveu seus primeiros relatos de viagens, que ia publicando à medida que os terminava, até 1932. Visitava os países ali por perto; foi à Grécia, à Espanha, França, à antiga Tchecosváquia (ou Morávia, de onde tirou seu pseudônimo), sempre escrevendo relatos de viagens, com um tom ao mesmo tempo jornalístico e literário. Indo cada vez mais distante, chegou à China. Penetrou o Oriente Médio, a Ásia, a África e a América Latina, dizendo-se apaixonado pelo Terceiro Mundo. Mas sua maior paixão era a África, da qual ele afirmava ser “a coisa mais bela que existe no mundo”. Durante seis décadas, ele viajou escrevendo suas impressões. Um desses preciosos textos é sobre Brasília. Em 1960 ele veio ao Brasil, atraído pela construção de Brasília, comentada em todo o mundo. Chegou para a inauguração, e o avião não pôde descer, o aeroporto estava repleto, e Moravia ficou planando sobre a cidade, tendo as primeiras ideias do fenômeno da capital, deitando seus olhos literários sobre as terras vermelhas despidas brutalmente de sua vegetação, a cidade que “caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue”. “Eis, em pé aqui e ali, tal qual peças de dominó desordenadas, os ainda raros edifícios; eis a meia-lua azul do lago artificial entre o tom avermelhado da vegetação”. Parece que Brasília o emocionou, pois deixou de lado sua prosa seca, derramando-se em belas letras. E ainda ali, no avião, voando sobre a cidade, já percebeu seus pontos cruciais. A cidade abstrata, criada para arrancar das costas barrocas e preguiçosas do Brasil as classes dirigentes para retomarem a marcha dos antigos desbravadores no rum do interior, e ocupar e povoar e enriquecer vastíssimos territórios. Mas, ao mesmo tempo que cidade desbravadora, cidade burocrática, a criar procedimentos padronizados para estruturar a organização, a hierarquia, a divisão do poder e do trabalho.

Como poderia Moravia, do alto do avião, antes de pisar na terra, acreditar saber tanto sobre Brasília? Ele se baseou nos exemplos da Ankara, Washington e Canberra, cidades planejadas, e perguntou: saberá Brasília “ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade?” Uma questão crucial para o destino da cidade. Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder? A cidade ainda se faz essa pergunta, diz o poeta. Como decifrar tua caligrafia de postes e ventos? Agora, Moravia está num carro e percorre o Eixo Monumental, depara-se com as torres e sopeiras contra um céu azul, sente-se pequenino como um liliputiano, esmagado e aniquilado pela arquitetura, acha que os edifícios são alguma alucinação, presente a atmosfera ditatorial, a solidão urbana, a desorientação que os pequenos habitantes sentem diante dos mistérios do poder que os governa. Sente o orgulho do país novo, que pela segunda vez na sua história sai à conquista de si mesmo. Acha o pôr do sol surpreendente e repentino, a noite sorrateira, a vegetação decrépita, sente falta das casas e ruas humildes que atestam a presença dos habitantes. Termina comparando Brasília a um altar das nossas igrejas construídas pelos primeiros colonizadores. Uma ostentação que nos obriga a ajoelharmos diante da beleza.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 17/06/2012.

 


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