Missão Cruls: 120 anos

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O homem que marcou o lugar

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Em consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936); ministro da Fazenda e da Agricultura, (de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892), por meio da portaria de número 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que, na época, era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções que deveriam nortear a demarcação da área, onde mais tarde, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976),  seria  construída Brasília, sem dúvida uma das mais belas capitais do mundo moderno:

“No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, matérias de construção, riqueza florestal, etc., da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão”.
“No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor cientifico com relação à essa parte ainda pouco explorada do Brasil”.

Procedimentos

Para se ter uma ideia dessa missão, convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos portáteis, teodolitos, sextantes, micrômetros de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópicos, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneroides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação – a Comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos, destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

Em 8 de junho, foi concedida anistia a todos os cidadãos detidos e expulsos durante os conflitos ocorridos em abril. No dia seguinte, mais exatamente, no dia 9 de junho, ocorreu a partida da Comissão, do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxilio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Uma greve dos ferroviários da Central do Brasil, em 22 de julho, paralisou os transportes, o que indiretamente motivou o pequeno atraso.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento, que consistia em se servir do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais, foi usado para determinar a distância por eles percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxilio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba, a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1 de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto, a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares – quer pela passagem da Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura -,  quer  por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenópolis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual tornar-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seguiria o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – exigiria um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – preenchia melhor a proposta. Tinha também a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que pudessem surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.
Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais, etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano. De modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição.

Texto transcrito do livro “Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar”, Gráfica e Editora Qualidade.

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