Miragem Brasília

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MIRAGEM BRASÍLIA
 
"Brasília pediu licença ao céu para sob ele, entremeada nele, se instalar"
 
Do texto Brasília Revisitada, que Lucio Costa apresentou ao governador José Aparecido 20 anos atrás, salta uma frase poética, mas uma das muitas entoadas pelo urbanista para descrever a cidade que ele inventou. "Brasília é, no caso, uma simples miragem", escreveu doutor Lucio.
A capital é uma miragem em contraponto com as cidades que a rodeiam. É uma obra de arte, um sonho, uma radiação luminosa, uma aparição sinuosa. A cidade-miragem existe no centro de um grande conjunto de cidades, áreas rurais e núcleos industriais.
O segundo mais importante texto de Lucio Costa sobre Brasília (o primeiro, evidentemente, é o Projeto do Plano Piloto) é um manual para se entender um pouco mais a cidade e uma escritura que decifra mais nitidamente os princípios fundamentais de sua invenção.
Sobre a espantosa idéia de colocar uma via de alta velocidade cortando as asas da cidade de ponta a ponta, Lucio Costa esclarece: "O plano de Brasília teve a expressa intenção de trazer até o centro urbano a fluência de tráfego própria, até então, das rodovias; quem conheceu o Rio de Janeiro, por exemplo, na época, entenderá talvez melhor a vontade de desafogo viário, a idéia de se poder atravessar a cidade de ponta a ponta livre de engarrafamentos." (Com o "na época", o arquiteto deve se referir ao final da década de 1950).
Em seguida, o urbanista manifesta seu assombro com a falta de um sistema de transporte urbano que permita ao brasiliense transitar facilmente pela cidade de malha viária tão ágil e célere. "O que permanece incompreensível é até hoje não existir – pelo menos na área urbana – um serviço de ônibus municipal impecável, que se beneficie das facilidades existentes (…). Bem como não se ter ainda introduzido o sistema de "transferência" que se impôs para que o passageiro não seja onerado indevidamente."
Tem também o céu, geografia definidora da nova capital. "Da proposta do Plano Piloto resultou a incorporação à cidade do imenso céu do planalto, como parte integrante e onipresente da própria concepção urbana – os "vazios" são por ele preenchidos; a cidade é deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda". Brasília pediu licença ao céu para sob ele, entremeada nele, se instalar".
Foi no Brasília Revisitada que doutor Lucio definiu com cuidado o que são as quatro escalas da cidade – a monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. (Nesse caso, escala é a relação entre as dimensões dos prédios, das áreas verdes, das vias de Brasília). A monumental, "marca inelutável da efetiva capital do país". A residencial representada pelas superquadras. A gregária, o centro da cidade. E a bucólica, as áreas livres "a serem densamente arborizadas".
Às vésperas de se comemorar os 20 anos de Brasília patrimônio da humanidade, é fundamental ouvir o doutor Lucio. E é assim que ele termina o Brasília Revisitada. "Brasília é a expressão de um determinado conceito urbanístico, tem filiação certa, não uma cidade bastarda. O seu facies urbano é o de uma cidade inventada que se assumiu na sua singularidade e adquiriu personalidade própria graças à arquitetura de Oscar Niemeyer e à sua gente."
 
Conceição Freitas
"Crônica da Cidade", Correio Braziliense – 8 de novembro de 2007

 


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