Meu Deus, que cidade linda!

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Por Guilherme Goulart

Ele tinha motivos de sobra para comemorar a aprovação, em concurso público, para um cargo no Banco do Brasil, em Brasília.
Além de deixar para trás o interior do país, Antenor conquistava a esperada oportunidade de conhecer e morar na cidade tantas vezes cantada por Renato Russo. Aos 25 anos, mantinha-se fá incondicional do eterno líder da Legião Urbana. Apaixonara-se pela banda no inicio da adolescência, quando ouviu, pela primeira vez, Faroeste Caboclo.

Àquela época, gastava horas e horas imaginando a Brasília reverenciada pelo ídolo. Estranhava termos como Asa Norte, rockonha, Parque da Cidade, camelo e tentava, por si só, desvendar esses mistérios. Quando soube do resultado do concurso, Antenor logo avisou: “Mãe, tô indo para Brasília! Vou conhecer a terra do Renato, a senhora acredita?” Dona Genoveva ficava com o coração apertado, mas sabia que a inteligencia e a dedicação do filho o levariam para longe dali. Ainda assim, ela era só orgulho.

Antenor deveria assumir o novo emprego dali a dois meses. Mas tamanha ansiedade o fez deixar a cidade natal quase imediatamente. Queria ver, ouvir, tocar e sentir a trilha sonora da juventude. “Mãe, vou de ônibus. Quero saber o porquê de o João (de Santo Cristo) dizer: “Meu Deus, que cidade linda” ao sair da Rodoviária e ver tudo enfeitado com as luzes de Natal. Dona Genoveva não sabia muito bem como lidar com a empolgação do filho, mas compartilhava tamanha felicidade.

O jovem legionário não dormiu nas mais de 24 horas de viagem interestadual, excitado demais para descansar o corpo e os olhos. Parecia um menino. Conversou com todos os passageiros, que, na metade do caminho, sabiam de cor a paixão do futuro funcionário do Banco do Brasil pela trupe de Renato Russo. Alguns mais solidários cantavam com ele as canções preferidas.
Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Faroeste Caboclo, Eu sei, Pais e Filhos…Terminava uma e logo engatava outra, transformando a viagem em excursão de segundo grau.
Antenor só ficou em silêncio quando o ônibus alcançou o Distrito Federal e enveredou pelo Eixão Sul. Encantou-se com os prédios, o verde abundante e a avenida de sete faixas, três de cada lado e uma central. Em cinco minutos, estava diante da Rodoviária. À direita, enxergou o que só a imaginação até então lhe trouxera: a Esplanada dos Ministérios. “Meu Deus, que ci-da-de lin-da”, repetiu, devagarinho, como João de Santo Cristo. Antenor Azevedo chorou como criança.

O servidor público viveu intensamente a capital federal até o primeiro dia de trabalho. As impressões e as estranhezas – era difícil entender as quadras, o trânsito e a falta de nome nas vias – apareceram nas cartas escritas à mãe. Também expandiu o conhecimento. Visitou museus, prédios públicos e monumentos. Descobriu Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx e Athos Bulcão. Em pouco tempo, conhecia mais a cidade do que muitos brasilienses. E prometeu à mãe que, tão logo alugasse “um apê no Sudoeste Econômico”, a traria para “um city tour de primeira”.

Antenor estava realizado. Morava na terra onde viveu o carioca Renato Russo.

Texto de Guilherme Goulart, transcrito da “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 24 de junho de 2017.

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