Menino presidenciável

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Menino presidenciável
(Fragmento)

 
Disseram-me: Homem não chora.
E eu, que queria ser herói, doutor, um grande aviador,
um famosíssimo escritor ou simples presidente,
perdi meu coração na aurora.
 
Eu ia ser presidente do Brasil
reeleito dez vezes
(depois, com a barba igual à do imperador
ia ser professor catedrático do colégio Pedro II
e ia construir uma catedral submersa
na Baía de Guanabara
onde só tocaria música de Bach, Haydn e Haendel
e uma estrada direta do Rio e Ubajara
só não sonhei Brasília, minha última namorada
e seus argentinos eucaliptos
e seus donos argentários
e seus espaços planetários
e suas sebes de ciprestes
separando esteticamente
os proprietários dos outros).
 
E como ainda seria pequeno
teria um carrinho do parque de diversões
como limusine presidencial
e em vez de moto, dois cavalos normandos
adestrados para trotar em ritmo de valsa
com penachos sobre as crinas
e uma baliza na frente, pernas de fora
fazendo acrobacias
pompa e elegância adequadas
a meu terno branco de primeira comunhão
com calças curtas e tênis de lona
alvejados com giz
(acho que, como presidente,
poderia comprar sapatos de verniz).
(…)
 
Esmerino Magalhães Jr, poeta natural do Rio de Janeiro
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 


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