Menina na inauguração

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias..., Naqueles dias... Sem Comentários

Por Ana Miranda
 
21 de abril de 1960 era o grande dia, esperado, sonhado. A cidade ia ficar pronta. Eu não duvidava,  meu pai não duvidava. Ninguém duvidava, e meu pai ria quando lia num jornal que alguém duvidava. Gente besta. Gente invejosa. Era simplesmente natural que ficasse pronta, como uma árvore cresce e fica pronta. Já estava quase pronta. Já está pronta! Foram anos vendo as matas derrubadas, a água enchendo o lago, esqueletos de prédios, de um dia para o outro, mudando o nosso caminho, valas se abrindo, fechando, ruas se abrindo, sendo asfaltadas, piche na sola do sapato, lojas novas, uma confeitaria, palácios, escolas novas, novas casas, a água jorrando nas torneiras, a luz acendia, cada dia uma nova família morando na quadra, crianças novas na escola. Você é de onde? Sou de Araguari. Sou de Patos. Sou de Uberlândia. Sou de Quixadá. Sou do Rio. Tudo aparecia naturalmente. Aquilo era o mundo, o mundo era assim. Vai ter uma festa.

Agora os ensaios na escola. Ao som de uma banda, ensaiávamos o desfile, marchando com nossos pezinhos frágeis, indecisos, mas estávamos orgulhosos. A festa era nossa. Em casa, mamãe preparava o uniforme de gala. Fomos à plissadeira, para marcar as pregas no tecido das saias novas, a máquina de plissar soltava fumaça, fazendo um barulho de sopros, e lá estava mamãe à máquina de costura, pregando cós, fazendo bainha, comprimento abaixo dos joelhos, alfinetando, vamos  fazer a bainha da saia, ponto atrás, um aqui, um ali, mamãe cortando e costurando as blusas. Provas dos uniformes. Compramos meias e sapatos novos. Doíam nos pés. Ouvíamos, e corríamos para ver os aviões ensaiando no céu. A cidade se enchia de carros, ônibus, caminhões. Era mais difícil atravessar a W3, sempre tão vazia. Agora precisava esperar. Esperar. Cuidado para atravessar a rua!

As lembranças de uma criança, eu tinha então oito anos, são difusas, misturadas, feita de relampejos. Na escola veio um fotografo a tirar chapas de cada aluno, para um diploma de testemunha da inauguração. As tranças cortadas…Lembro Juscelino na frente do palácio do Planalto, bem distante, pequenino, ladeado por outras pessoas, as duas mocinhas filhas dele, eu até sabia o nome delas, Márcia e Maristela, que lindas! O pai fazendo um discurso na frente de todo mundo. Lembro soldados desfilando, de roupas estampadas, com bandeiras, cachorros. Tratores no asfalto. Os jatos no céu finalmente se apresentando, soltando fumaça, voando baixo, mergulhando, parecia que iam cair, será? O nosso desfile, meu coração batendo forte, concentrada para não errar o passo, segurando uma bandeira, os tempos fortes dos tambores. E o sol da liberdade em raios fúlgidos…

Onde está mamãe? Um homem de cartola, que chapéu mais engraçado, parecia um mágico de livro. Uísque caindo dentro de um copo cheio de gelo, mamãe de sapatos altos, sim, as mulheres eram elegantes, iam assistir a uma festa de multidão em sapatos altos, o vestido justo nos quadris. Papai de terno, com a mão no peito, uma lágrima escorrendo pelo rosto. Tiros de canhão! Um homem via ser morto, meu Deus! Usa um vestido branco comprido e tem uma corda no pescoço, sei que é Tiradentes, um balé na frente das torres, entre as cuias iluminadas, um balé de gente pequenina, uma miniatura de balé, índios! Índios! a pluma na cabeça de um soldado, carros de corrida na rodoviária, um atropelamento, dizem que a moça ficou com os cabelos arrepiados, de arrepiar, Juscelino desce de um helicóptero, no meio do balé, o céu de noite iluminado por fogos, fumaça, que encanto! Fachos de luzes cruzando o céu, e um momento de magia, o momento mais nítido na memória, um longo instante, formando-se perto do horizonte as letras J e K, e o rosto de Juscelino! Numa chuva de estrelas. Como era possível fazerem aquilo? Deitada na cama, com sono, como era possível fazerem aquilo? Fazer a cidade.
 
Texto transcrito do Correio Braziliense, 07/10/2012.

Trackback do seu site.

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …