Maria da Glória Lima Barbosa

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Maria da Glória Lima Barbosa identifica o Criador, que faz e amolda o homem – e a geometria, para as mãos do próprio homem. As figuras geométricas – a sensibilidade para dispô-las com simetria, equilíbrio, beleza enfim – são o prenúncio e antecedente de tudo. Depois, vem o consequente: a cidade com sua própria arquitetura, com a engenharia que a fez única e singular. Parodiando o livro (Gênesis), há a fase da construção, com a luz, os arcos, os portais, o “giro dos planetas”, e tudo é harmonia e perfeição, porque fruto de mãos sábias, modelares. É apenas o fenômeno da hereditariedade. Ares que respirou durante anos – na condição de aluna do curso de Letras, em seguida na elaboração de sua dissertação de mestrado sobre a poesia “brasiliense” – inspiraram Maria da Glória no poema “Universidade de Brasília”. Sua sensibilidade vai além das “(…) aulas de cálculo,/das análises sintáticas”,//”(…) das salas de aulas, dos horários e das teorias”,//”das teses e antíteses”. As antenas de poeta alcançam a singeleza da mulher que, no campus, “(…) rega as plantas no jardim”, na sua “ligação misteriosa” (…) “com a vida” (…). “Os bebês crescem nas barrigas” e “as buganvílias insistem em florescer/doidas de vermelho,/bem na porta da biblioteca”.
Grande amor é o da poetisa, que ela mal sufoca, mesclando-o aos elementos materiais, ao “painel de anúncios” (…)”, aos semáforos e asfaltos, à moldura da sala. Amor, que é sobretudo memórias e impregnou todas as coisas, as que o materializavam ontem (nos prédios e nas chuvas) e reflete-se hoje no que ficou como referencial. É uma lamúria sutil, delicada como o espírito da autora, que nos convida à solidariedade a quem era (e é) “(…) toda fé e solidão”. “No elevador”, a mulher é romântica, sonhadora, tem “fome e sede” ante o desconhecido, tentador, quase inteiramente alheio ao fascínio que exerce, logo no primeiro andar. No segundo andar, o jogo amoroso – tão próprio do espírito feminino – nega, orgulhoso, “a senha”. E sem que nada ocorresse, camuflada a senha, no oitavo andar, “o homem partiu para sempre”. “Praça de muitos poderes” é atualíssimo. Retrata “A chegança de Lula ao Planalto Central”.

Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

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