MARCO ZERO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

MARCO ZERO

Quando não havia torre, lago ou rodoviária
Que o Eixão era somente uma forma imaginária
A ciriema cantava solene compenetrada
Vacas e bois ruminavam no meio da Esplanada
Partiu-se de um ponto
Traçaram-se as retas
Cruzaram-se os eixos
Riscaram-se os mapas
Somaram-se os números
Mediram-se os ângulos
Ligaram-se as máquinas
Rasgaram-se as ruas
Quando não havia ainda
Samambaia e Setor P
Quando lobos farejavam
Nos campus da UnB
E tatus faziam túneis
Muito antes do metrô
Tropeiros e comitivas
Arranchavam livremente
Onde se fez o Palácio
Onde se fez… a Rodô
Partiu-se de um ponto
Traçaram-se as retas
Cruzaram-se os eixos
Riscaram-se os mapas
Somaram-se os números
Mediram-se os ângulos
Ligaram-se as máquinas
Rasgaram-se as ruas
Quando só havia mesmo
Este céu por testemunha
Quando tudo que se via
Era o vasto chapadão
Seguidores de estrelas
Caçavam pedras e índios
Muito antes de Ana Lídia
Ou da forma… do avião
Partiu-se de um ponto
Traçaram-se as retas
Cruzaram-se os eixos
Riscaram-se os mapas
Somaram-se os números
Mediram-se os ângulos
Ligaram-se as máquinas
Rasgaram-se as ruas

Paulo Tovar e Haroldinho Mattos, poema que venceu o Festival da CUT

PAULO TROVAR, POETA QUE PULSOU COM BRASÍLIA

 

"Até logo! Até logo! Companheiro
Despeço-me sombrio e te asseguro
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro"

É sempre assim: quando um poeta descansa, toma seu rumo e pede passagem; é mais um verso que se faz lágrima na plumagem. Quando um poeta escorrega para a lembrança, é como a fumaça ou quem sabe, uma rima pobre na busca do rico milagre.

Com Paulo Tovar não será diferente. Ele também contribuiu para o Livro Universal da Poesia. Poeta andarilho, quase um Bashôzinho buscando seus caminhos nos campos de arroz pelo cerrado do Planalto Central, ele foi uma figura presente e marcante da nossa geração em Brasília. Juntou-se a nós (Nicolas Behr, Renato Matos, Haroldinho Matos, Neio Lúcio, Wagner Hermuche, Noélia. Paulo Djorge – vou parar nessa simbólica meia dúzia de três ou quatro) nessa caminhada que começou ali no início dos anos 80, no gramado da 310 Sul, nos Concertos Cabeças, e terminou agora depois de quase três anos de uma incansável luta contra um câncer no cérebro.

Tovar não passou em vão por esta trilha estreita, seca e breve que é nossa existência. Deixou seu carimbo. Fez poesias, músicas, parceiros, deixou filhos, amores, venceu festivais, criou polêmicas, plantou árvores. Tive a notícias da sua partida no início da noite de ontem. Ele havia sido levado para o hospital já totalmente inconsciente, com falência múltiplas dos órgãos. Era a viagem sem volta. O poeta iria descansar. Hoje, recebi muitos i-meios e certamente a internet será o canal ideal da sua despedida de tantas lembranças guerreiras.

Entre as mensagens, escolhi a de Paulo Timm, ex-secretário de Meio Ambiente do governo Roriz, economista, professor da UnB, também poeta como nosostros, ele escreveu:

"Não há como falar do Tovar sem falar em música. E não há como falar de sua morte sem emoção. E me ocorre uma bela e comovente canção – acho que do Chico Buarque ou cantada por ele, o Tovar sempre me criticava por entender pouco de música- , que diz: "Em Mangueira quando morre um poeta, todos choram". Pois hoje Brasília está transformada numa imensa Mangueira, toda verde e rosa chorando a passagem de um de seus maiores poetas: Paulo Tovar

Timm foi companheiro de Tovar em Olhos D´Água, assim como Áurea Lúcia, Renato Matos, Bic Prado e tantos outros. Conviveram com o poetinha no interior do Goiás, cuidando da terra e das águas.

Timm escreve: "Vai com a tua Juriti encantar novos caminhos. Fica apenas meu testemunho da tua condição humana, da tua alma frágil que jamais se deixou seduzir

pelo desencanto de um mundo, que de tão cruel te marcou tanto, com tantas cicatrizes."

Façamos nossas, as sua palavras, professor. Paulo Tovar venceu o 1º Festival de Música da CUT Nacional. Inventou o poema-óculos; o "H2OlhoS", uma criação genial que ele vendia de bar em bar. Tinha sempre um projeto debaixo do braço e uma idealização na cuca, um jeito dengoso de ser e uma angústia no viver.

Homenagem ao poeta Paulo Tovar, transcrita do Blog do Turiba.
http://blogdoturiba.blogspot.com

 


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