Márcio Catunda

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília, Decifrando Brasília 1 Comentário

Márcio Catunda, diplomata, por onde vai conduz Brasília, sempre, em seu interior. São vários os seus poemas que, atentos, ternos e minuciosos, ocupam-se de sua paisagem física e humana. “Instante em Brasília” faz apologia de “…frondosas árvores”, “sombra fraterna”, “aconchego dos mangueirais”, “(…) pássaros que se embriagam de vento”. No “Entre o Conjunto Nacional e o Conic”, o poeta acompanha o “gado humano” que “pasce” entre os dois pontos tradicionais da Capital. “Passa gente de todo espectro”. De aspecto viário: “mendigos, operários, burocratas”.

Transitam também os “que vão sobre a redoma celeste”, sedentos de Deus não raro tangidos e sugados pelos abomináveis profissionais da fé. Os vendedores ambulantes, o “sanfoneiro cego”, o “aleijadinho”, o “policial esgalgo”, o “Brasil de passo inconsciente” que se insere nas noites “da Ceilândia, de Taguatinga, de Samambaia”, um mundo imenso…O poeta comenta, em “Fuga sentimental”: “O sol inventa flores na festa do dia”, “o sol realiza o colorido das nuvens”, “os lírios reverenciam a luz de Deus”, “Azul é o corpo de Deus”. Tudo isso enquanto respira “na companhia de eucaliptos” e “nas vastidões altiplanas, e o circulo expansivo invade os horizontes”. O Lago Paranoá tem feito jus a muitos cantares. Márcio Catunda não o deixa à margem de seus encômios. “Repousa o lago – manso fluir de dorso espiritual,//leito azul-esverdeado na tarde…”//”Repousa o lago entre fulgores”, “Densidade obscura e translúcida…”. E encerra (poema “Crepúsculo sobre o Lago Paranoá”): “Perplexidade, quietude, harmonia,/suave claridade”. Em flash, os edifícios são contemplados: “(…) desenham uma muralha…” e também “árvores (…) de um verde vertiginoso”. “Manhã de vapor liquido pelos arredores de Brasília” é mais um cenário destacado. Nele, o “Horizonte além dos blocos e do cerrado”.

Transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, seção “Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

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Comentários (1)

  • Efigênia Campos

    |

    Não conheço um apanhado poético dirigido a qualquer outra cidade no mundo, igual a esse. Legal!

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