Marcha à ré, Rumo ao Oeste, Via Dutra

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Marcha à ré
 
Nos anos 30, governo Vargas, ocorre claro retrocesso. Dispõe a Constituição de 1934 no artigo quarto das Disposições Transitórias:
 
"Será transferida a Capital da União para um ponto central do Brasil. O presidente da República, logo que esta Constituição entrar em vigor, nomeará uma Comissão que, recebendo instruções do governo, procederá aos estudos das várias localidades adequadas à instalação da Capital."
 
Apesar dos estudos anteriores e até da placa do Centenário, até o local volta a ficar indefinido. Vargas, pessoalmente, não era favorável à transferência. Mas, no seu governo democrático, iniciado em 1951, acabará colaborando com o projeto, como se verá. Circunstâncias políticas, pressões, pragmatismo.
 
Rumo ao Oeste
 
Em 1937, vem o golpe do presidente Vargas que institui o Estado Novo, regime ditatorial que vai se estender até 1945. Nova Constituição, então outorgada, não trata do assunto. Em visita a Goiânia, em 7 de agosto de 1940, Vargas lança a Cruzada rumo ao
Oeste. Trecho do discurso: "O vosso planalto é o miradouro do Brasil. Torna-se imperioso localizar no centro geográfico do país poderosas forças capazes de irradiar e garantir a nossa expansão futura." Em nenhum momento menciona ou insinua que a construção de nova capital seria parte dessas forças. O Estado Novo não quer a capital em novo estado. A omissão apenas confirma o que todos já sabem.
 
Via Dutra
 
Com a democratização de 1945 e a instalação de Assembléia Nacional Constituinte no ano seguinte, o tema volta ao palco político. Mas o primeiro anteprojeto de constituição não incluía o dispositivo da mudança da capital. O constituinte mineiro Arthur da Silva Bernardes, presidente da República no período 1922-26, sugere a inclusão de preceito idêntico ao da Constituição de 1891. A idéia dispara os debates na Comissão Constitucional. É abril de 1946. Logo surgem duas novas propostas. João de Campos Café Filho, do Rio Grande do Norte, quer a capital na recém-inaugurada Goiânia, cidade planejada. Mas Benedito Valadares Ribeiro, de Minas, preconiza área do fértil Triângulo Mineiro. É a proposta aprovada na Comissão. Mudança para "a região central compreendida entre os rios Paranaíba e Grande", na prática eufemismo de Triângulo Mineiro. Fazia sentido: área próxima aos corações geográfico e econômico do país, titular de respeitável infra-estrutura econômico-social, inclusive considerável base urbana. Isso resultari em prazo de construção menor e sobretudo em custo de implantação inferior. Muito inferior. Curioso: observe-se que não é definido com exatidão o município triangulino. Talvez pela dificuldade de escolher entre seus dois pólos – Uberlândia e Uberaba -, históricos rivais. No Plenário, a transferência para Minas tem o apoio de constituintes destacados, como os mineiros Daniel de Carvalho e os dois futuros pilares da construção de Brasília: Israel Pinheiro da Silva e Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1946, eles defenderam vigorosamente a localização em Minas, lastreados em estudos preparados pelo engenheiro Lucas Lopes. A bancada de Goiás – Pedro Ludovico Teixeira, João d’Abreu, Diógenes Magalhães e outros – admite Goiânia como opção temporária, mas luta tenazmente pela alternativa Cruls, a que prevalece na votação final. Cinco votos a mais que o Triângulo Mineiro.
O artigo quarto das Disposições Transitórias da Constituição de 18 de setembro de 1946 determina expressamente a transferência, mas não define data para a conclusão dos trabalhos técnicos e início das obras. Nem para a mudança:
(…)
 
Militar disciplinado e legalista, o presidente Eurico Gaspar Dutra cria, dois meses depois, a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil, chefiada pelo general Djalma Poli Coelho. Reúne engenheiros, agrônomos, geólogos, higienistas, médicos e militares. É a chamada Comissão Poli Coelho. Sob o argumento de aproveitamento de série de trechos fluviais na fixação dos limites – para simplificar a questão da passagem das terras á jurisdição federal -, ela amplia o quadrilátero de Cruls para o norte e chega a área de forma irregular de 77.250 quilômetros quadrados. Uma enormidade. Mais de cinco vezes o quadrilátero original. A sorte está lançada.
 
Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 


Trackback do seu site.

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …