Lucio Costa

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Lucio Costa
 
São de rodas teus sonhos?
Há eixos e tesouras na utopia?
De que material é feito o desejo?
Existe forma no escape, na fuga,
na evasão das avenidas?
Os aviões com sua turbo-hélice
obsedante.
A cidade redonda sem círculo que a
encerre.
 
Tuas ruas futuras foram construídas com
a argamassa
mais líquida: o humor do homem.
Teus desenhos pressupõem o homem
ideal
que traço algum, humano ou divino,
ousou riscar no papel ou na vida.
Terias primeiro, velho Deus do desenho
de refazer o barro e, em vez do sopro,
dar-lhes traços que o façam
menos silhueta.
 
A cidade tem a volúpia do centro,
o redemoinho de cimento,
o desejo calcado de engolir-se
em sua rota traçada para fugir de si
cada vez que mais se encolhe.
A cidade é enorme roda-gigante,
feita na barroca voluta de eixos desfeitos
e tesouras e asas e quadras
que se enroscam no gabarito
do homem estonteado e central.
 
Esta cidade é cêntrica,
e suas bordas repetem o centro,
como uma pedra lançada n’água,
e, embora tudo me tonteie
e engula em sua voracidade de vórtice,
sinto-me sempre prestes
à periferia dos nervos,
à margem da vida,
à borda urbana.
 
No papel, as cidades
são plausíveis como uma maçã.
Aqui há maresias e marés
na memória escafandrista da secura
de agosto.
 
Ronaldo Costa Fernandes, poeta maranhense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”, Correio Braziliense – 22/04/2010.

 


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